quarta-feira, novembro 12, 2008

Palestras sobre Educação

JB Online

RIO - O Sesi-RJ promove o 2º Ciclo de Palestras sobre Educação. Especialistas vão percorrer 10 escolas em 10 municípios do Estado do Rio dando palestras gratuitas para pais e professores.

O projeto visa debater temas sobre limites,adolescência, ensino de valores, virtudes e disciplina, fortalecendo o laçoentre família e escola. As vagas são limitadas e devem ser reservadas pelotelefone 0800-0231231.

No Sesi de Jacarepaguá, no dia 17 de novembro, às 19h, a mestre em Educação pela UFRJ Tânia Zagury fala sobre por que não bater, a palmada, como disciplinar, prêmios e recompensas, necessidades e disciplina por faixa etária,tarefas dos pais, e como não perder a autoridade ao disciplinar.

No mesmo dia,o professor e pesquisador Celso Antunes, especialista em Inteligências e Cognição, discute sobre valores na Educação, no auditório do Senai, em Nova Friburgo, às 19h.

Confira a programação de novembro:

17/11

- “Limites sem trauma, construindo o cidadão”, de TâniaZagury. Sesi de Jacarepaguá, 19h, na Av. Geremário Dantas 342, Tanque

- “Como ensinar valores, discutir inteligências ediscutir emoções”, de Celso Antunes. Nova Friburgo – Auditório do Senai, na Rua Pref. José Eugenio Muller, 220, 19h

18/11

- “Educar sem culpa”, de Tânia Zagury. Sesi de Nova Iguaçu, 19h, na Av. Gerson Chernicharo 1.321, Bairro da Luz

- “Limites sem trauma, construindo o cidadão”, de Tânia Zagury. Sesi de Duque de Caxias – Auditório do Senai, na Rua Arthur Goulart, 124,14h

- “Como ensinar valores, discutir inteligências ediscutir emoções”, de Celso Antunes. Sesi de Itaperuna, 19h, na Av. Deputado José de Cerqueira Garcia 883

19/11

- “Como ensinar valores, discutir inteligências ediscutir emoções”, de Celso Antunes. Petrópolis - Auditório da Fase, na Faculdade Arthur Sá Earp Neto, 19h, na Av. Barão do Rio Branco 1.003, Centro

20/11

- “Educar sem culpa”, de Tânia Zagury. Seside Barra do Piraí, 19h, na Av.Mário Salgueiro 1.065, Belvedere

Fim da Violência contra a Mulher

O Ser Mulher convida a todas/os interessadas/os para os Diálogos Abertos sobre a “Campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher”, atividade que será coordenada por Dra. Conchita Pazo, responsável pelo projeto na área de violência contra a mulher, com o apoio da Fundação Luterana de Diaconia.

Nessa oportunidade será informada a agenda dessa campanha em Nova Friburgo e a importância da articulação das várias instituições envolvidas na prevenção e assistência às mulheres em situação de violência.



Local: Sede do Ser Mulher – Rua Souza Cardoso, 56

Centro – Nova Friburgo – RJ

Dia: 24 de novembro de 2008

Horário: 17h30

terça-feira, outubro 28, 2008

Biográfico Panorãmico



O Biográfico Panorâmico é realizado em regime de imersão, em locais reservados, onde os participantes podem dedicar-se a trabalhar o seu interior, para retornarem ao seu mundo renovados e modificados.

Os nossos próximos Biográficos Panorâmicos ocorrerão nas seguintes datas e locais:

* Em Juiz de Fora, de 13 a 16 de novembro, no Seminário da Floresta.
* Em Teresópolis, na Pousada & Spa Vrindávana, na estrada que liga a Nova Friburgo, de 27 a 30 de novembro.

Escreva para santana@terapiabiografica.com.br ou marceloguerra@terapiabiografica.com.br para mais informações.

O objetivo do Trabalho Biográfico é conhecer a sua vida e percorrer os caminhos da sua própria história reconhecendo os fios que te conduziram até o momento. Através do levantamento dos fatos da sua própria vida e da leitura consciente desses fatos, você trabalhará o panorama familiar e individual desde o seu nascimento até o dia de hoje, podendo então reescrever a sua história com linhas e fios mais claros, passando pelo centro do seu próprio destino.

De dentro de sua história, e só assim, é possível você reconhecer sua missão humana e transformá-la em ação consciente no mundo.

Este trabalho será de quinta-feira à tardinha a domingo após o almoço, em lugar selecionado para instrospecção e cura.

Coordenadores:

* Rosângela Cunha

Psicóloga, Gestalt-terapeuta e Terapeuta Biográfica

* Marcelo Guerra

Médico Homeopata e Terapeuta Biográfico
www.daoterapias.com.br

quinta-feira, outubro 16, 2008

Vivência Biográfica em Teresópolis


De 27 a 30 de Novembro, na Pousada e Spa Vrindávana. Promovido por DAO Terapias.

O objetivo do Trabalho Biográfico é conhecer a sua vida e percorrer os caminhos da sua própria história reconhecendo os fios que te conduziram até o momento. Através do levantamento dos fatos da sua própria vida e da leitura consciente desses fatos, você trabalhará o panorama familiar e individual desde o seu nascimento até o dia de hoje, podendo então reescrever a sua história com linhas e fios mais claros, passando pelo centro do seu próprio destino.

De dentro de sua história, e só assim, é possível você reconhecer sua missão humana e transformá-la em ação consciente no mundo.

Este trabalho será em regime de imersão, de quinta-feira à tardinha a domingo após o almoço, em lugar selecionado para instrospecção e cura.

Coordenação:
¬ Rosângela de Santa Anna Cunha, psicóloga, gestalt terapeuta, terapeuta biográfica.
¬ Marcelo Guerra, médico homeopata e acupunturista, terapeuta biográfico.
www.daoterapias.com.br

quarta-feira, outubro 08, 2008

Entrevista com Joseph Campbell


http://monomito.wordpress.com/2007/08/24/uma-entrevista-com-joseph-campbell/


Uma Entrevista com Joseph Campbell


Escrito por Josenildo Marques

em 24 Agosto, 2007
A entrevista abaixo foi publicada no The Goddard Journal (vol. 1, nº 4) em 9 de junho de 1968. Nela Joseph Campbell fala sobre metodologia no estudo dos mitos, hinduísmo e o livro que estava para lançar: o quarto volume de As Máscaras de Deus, que é sobre o que ele chama de Mitologia Criativa. Esse livro ainda não foi traduzido para o português, portanto creio que minha tradução dessa entrevista, provavelmente a primeira a ser feita, possa oferecer uma boa introdução ao tema central do livro.

———————



I - Em seus estudos sobre mitologia, você tem usado seu conhecimento de psicologia e psicanálise para interpretar mitos. Você acha que mais poderia ser conseguido se houvesse maior variedade de metodologias à disposição?


C – Sou contrário a metodologias por que acho que elas determinam o que você vai aprender. Por exemplo, o estruturalismo de Lévi-Strauss. Tudo o que vai achar é o que o estruturalismo permitir que você ache. E um olhar aberto aos fatos que estão na sua frente vai ser impossível dessa maneira. Parece-me que assim ele se fecha para iluminações.


I – É culpa da metodologia em si ou da inabilidade da pessoa para usar a metodologia como uma ferramenta de maneira mais flexível?


C – Sim, sem dúvida, o caminho flexível é o mais apropriado. Você tem que saber correr, andar, parar e sentar-se. Mas se quiser ficar só sentado, então vai limitar sua experiência.

No anos 20 e 30, o funcionalismo estava na moda. Você não podia fazer comparações interculturais; você tinha que interpretar tudo de acordo com o que conhecia da cultura local. Seria como examinar o apêndice no corpo humano para determinar a condição do homem moderno. Você tem que seguir sua origem e descobrir que uso tinha em tempos remotos.

De maneira similar, muitos dos elementos de uma cultura são vestígios de usos anteriores, de funções remotas. E esses homens, por exemplo, Radcliffe-Brown, em seu livro (que considero esplêndido) sobre os habitantes das Ilhas Andamã, falha em entender aqueles mitos. Eles estão todos na frente dele e sua abordagem não responde as perguntas. Tudo que tem que se fazer é um pouco de comparações e se vai descobrir que as interpretações aparecem. Ficando preso a um método, ele limita sua visão e falha na interpretação daquela cultura.


I – Eu suponho que a tendência a totalizar a metodologia na ciência poderia ser comparada ao processo de totalização na religião, na qual a chance de uma revelação é, de alguma maneira, diminuída se não for erradicada porque as estruturas são congeladas, os rituais são congelados. E a vitalidade, o princípio interior de vitalidade, parece ficar estultificado.


C - Bem, concordo com isso plenamente. E eu acho que essa ênfase na estrutura, neste ou naquele método, é um tipo de desdobramento do monoteísmo. E noto que estudiosos judeus são mais inclinados a isso do que os outros. Ele tem que ter apenas um modo de interpretação. Veja os marxistas e os freudianos – e agora vem o estruturalismo de Lévi-Strauss, e nada mais conta. É incrível. É só a nossa panelinha aqui e qualquer prova que não se encaixe deve ser descartada. Tenho uma teoria sobre isso…


I – Lembro-me imediatamente de O Futuro de uma Ilusão de Freud, em que ele discursa sobre a origem do monoteísmo a partir da estrutura, do pai; e sabemos que as famílias judaicas trazem isso da figura paterna. Talvez essa seja uma das raízes psicológicas para esse tipo de abordagem estreita sobre a existência.


C – Exato. Em Totem e Tabu, Freud diz: “Admito que não consigo explicar as religiões matriarcais”. Esqueci a página, mas está em muitas palavras.


I – É algo que ele não consegue entender.


C – Não consegue porque o que ele está seguindo em Totem e Tabu é a horda do pai, o clã do irmão e as religiões patriarcais. Essa é a seqüência lá…Mas, e o culto à Grande Mãe?

No início, a tradição hebraica é a tradição do guerreiro-caçador, não é a de um povo sedentário que cultiva a terra e faz comércio. Entende? E é dessa última que se origina a grande civilização: agricultura, domesticação de animais, não do caçador errante. Os caçadores são todos guiados pelo princípio masculino: é o homem que traz a comida. Os povos plantadores são guiados pelo princípio feminino: a mulher é análoga à terra, que procria e nutre. Portanto, o Dr. Freud, com seu tipo de antipatia patriarcal para com o princípio feminino, não consegue lidar com isso.


I – Eu sei que não se pode ter uma ação trágica sem uma causa primordial, porque sem um objetivo não há como voltar ou até mesmo uma percepção trágica como acontece com Édipo. Não conseguiria imaginar Édipo Rei sendo escrito por um chinês, ou não poderia imaginar algo como Édipo Rei saindo da cultura oriental. Como você explica isso?


C – Tive uma experiência interessante sobre isso. Quando estava na Índia, associei-me por algum tempo a uma companhia de teatro de vanguarda em Bombai que se chamava Unidade de Teatro. Era uma companhia constituída de indianos não-hindus em sua maioria. O colega encarregado da companhia tinha origem árabe e seu associado mais próximo era um judeu indiano. Há uma antiga comunidade judaica na Índia. Muito dos participantes eram parsis. Adivinhe o que estavam apresentando? Estavam apresentando Édipo Rei. Eles tinham sua clientela, que já estava acostumada a assistir o que estavam apresentando. Eu os assisti quando se apresentaram a seu público em Bombai e, alguns meses depois, quando eu estava em Nova Délhi, eles chegaram e apresentaram Édipo Rei a um público totalmente hindu.

Você não acreditaria! Eu estava lá sentado, já tinha estado na Índia o tempo suficiente para entender o ponto de vista do público - e que horror! Aquelas pessoas estavam completamente chocadas. Eu nunca tinha visto tamanho tapa na cara do público. Eles nunca tinham visto uma tragédia grega; nunca tinham visto uma; não sabiam nada sobre a tradição grega.

A ênfase na Índia é para eliminar o ego: ele não existe. Em sânscrito, não há nem mesmo uma palavra para indivíduo. Os indianos não são indivíduos. São membros de uma casta, são membros de uma família. Eles estão em certos grupos etários; e têm certo temperamento; tudo isso são coisas genéricas. Mas lá estava aquela coisa pessoal do tipo mais violento e a quebra de tabus. O público ficou horrorizado.

Você podia ver que era uma absoluta violação de tudo que já pensaram ver no teatro, em qualquer nível, porque não existe algo como a tragédia no Oriente. Como pode existir uma tragédia quando se acredita na reencarnação? A dramaturgia oriental é um tipo de teatro de conto de fadas: nuances amorosas e situações divertidas, mas nada muito sério. Aquele que sofre na tragédia oriental é aquele quem tem que sofrer de qualquer forma. É esse corpo impessoal. Deixem-no ir – quem se importa?



O herói, o tema enfatizado na mitologia hindu, não é a pessoa; é o Shiva reencarnado que nasce e morre. E os gregos transferem isso para a pessoa. No Oriente, a pessoa que falha na sua jornada é um palhaço, um louco. No Ocidente, é um ser humano.

Lembro que, muitos anos atrás, quando eu estava escrevendo o Herói de Mil Faces, quando quer que eu quisesse um exemplo de fracasso, tinha quer dar um exemplo grego. Por que os heróis gregos são aqueles que sofrem. Os heróis orientais são aqueles que estão na jornada através do mito.


I – Estou tentando me lembrar de um exemplo oriental da tragédia grega.


C – Você quer dizer algo que poderia nos dar um tapa na cara como Édipo Rex fez com os hindus?


I - Sim. Lembro-me que, embora não seja um paralelo, no curso da tragédia de Beckett Esperando por Godot. Para mim, a tragédia nessa peça está no público. Beckett tirou tudo, exceto o trágico, e deixando o trágico, só ele resta. É apresentado só o básico, tão completamente reduzido que a ofensa se torna devastadora.


C – Bem, posso dar um exemplo do que tocar o público ocidental tão forte quanto a tragédia ocidental que aquele público hindu assistiu, e é o sacrifício ritual hindu. Num desses sacrifícios, por exemplo, alguém tem que tirar a pele de uma cabra e tem que tomar cuidado para que a cabra fique viva até que a pele seja totalmente tirada.


I – Esse exemplo seria bom.


C – Esse seria, não seria?


I – E a mitologia africana?


C – Ah, é uma mitologia rica. Os treze volumes de Frobenius – The Atlantis – é magnífico. Muito rico.


I – Você fez algum trabalho nessa área?


C – Ah, sim, muito. Mas ela ainda não foi bem coligida em inglês. Os alemães e os franceses fizeram melhor, eu acho, do que os ingleses. A Inglaterra estava mais, sabe, no Congo, com armas e câmeras…


I – Stanley e Livingstone…


C – Sim. Os alemães e os franceses foram até ela. Agora os ingleses estão indo. Para mim, a coisa mais interessante nos estudos africanos recentemente é esse alinhamento da cultura nok com a cultura effie, validando a intuição que Frobenius tinha no início do século, da antiguidade daquele complexo cultural na África ocidental, datando-o em cerca de 1000 a.C. Frobenius foi o primeiro a reconhecer e estudar a África como uma unidade histórica, não apenas como um bando de tribos selvagens.


Por que Frobenius ainda não foi traduzido para o inglês?


C – Eu descobri Frobenius no período em que estava lendo como um louco durante a Grande Depressão, antes de 1932. Por volta de 1939, estava tão entusiasmado que entreguei os livros de Frobenius ao meu agente literário para ver se conseguíamos um editor. Tenho as cartas desses editores: “talvez interessem a alguma universidade afro-descendente, mas…” Por isso Frobenius ainda não foi traduzido. Mas o verdadeiro motivo é que a Sociedade Antropológica Americana não concordava com as proposições dele – ela é um desses grupos monoteístas. Frobenius defendia a idéia da difusão; ele era um difusionista, que é um palavrão para a Sociedade Antropológica Americana. E esse homem que era grandemente respeitado na Europa é desconhecido aqui.

Tenho uma amiga que escreveu livro sobre questões políticas internacionais e foi a um editor que conheço muito bem. O livro foi rejeitado por esse editor porque ela só citava Frobenius.


I – Estou curioso para ver seu quarto volume.


C - O quarto volume vai sair no dia 20 de maio. Daqui a um mês depois de amanhã – e acredite – estou contente. Trabalhei nele por quatro anos. Demorou um ano para os editores conseguirem publicá-lo. Foi um pouco complicado, mas não vai saber quando lê-lo.


I – Você poderia falar um pouco do que trata neste volume?


C - Claro. É um livro que trata do que eu chamo de mitologia criativa. Na mitologia tradicional, à qual os três primeiros volumes são dedicados – a primitiva, a oriental e a ocidental – os símbolos mitológicos são herdados pela tradição e o indivíduo passa pelas experiências como planejado. Um artista criativo trabalha de maneira inversa. Ele passa por uma experiência de alguma profundidade ou qualidade e procura as imagens com as quais representá-la. É o caminho inverso. Por isso o título do livro é Mitologia Criativa.

Ele trata do primeiro problema que é a experiência estética, que eu chamo de “apreensão estética”, e então apresento uma análise da tradição imagética que os artistas modernos europeus herdaram. Temos a antiga tradição da Idade do Bronze; temos as tradições semita e hebraica; temos as tradições clássicas gregas. Também temos as tradições dos cultos de mistério e a tradição gnóstica; temos a tradição muçulmana, que era muito forte na Idade Média; temos a tradição celta e germânica e assim por diante. Esse é todo o vocabulário; é um tesouro maravilhoso no qual o artista vai buscar suas imagens.

De fato, elas vão coagular com ele se ele for um homem meio letrado. As imagens virão e vão se combinar com o que ele está dizendo. E eu cito como meu documento principal a tradição da literatura secular européia dos séculos XI e XII. Para juntar tudo isso, peguei a literatura que lidasse com temas comuns. Os dois temas comuns que, para mim, parecem apresentar uma influência dominante na escritura européia ocidental são o tema de Tristão e o do Santo Graal

. Começo com um grupo de escritores do fim do século XII e início do século XIII. Aí apresento ecos deles, primeiro em Wagner; depois a constelação em volta dele: Schopenhauer e Nietzsche; e seguindo até, é claro, Mann e Joyce

. Então, de maneira geral, vou e volto com o tema da terra devastada.



Rapaz, não é excitante? Esse conflito entre autoridade e experiência individual. Esse é meu tema principal do começo ao fim. E com ele vem a afirmação do indivíduo em sua experiência individual que só é possível hoje no mundo ocidental. Nossa religião foi importada do Levante com seu autoritarismo e até mesmo com a revolução protestante, que foi um tipo de triunfo do espírito individualista europeu, ainda apegado à Bíblia, então você tem que acreditar naquela coisa estúpida escrita Deus-sabe-quando. Mas a verdadeira literatura secular se desliga disso. E esse desligamento acontece com o Graal. É claro que ela começa a florescer justamente na época de Inocêncio III, o mais autoritário dos autoritários, mas acabou – parou bem ali, por volta de 1225-1230. A Inquisição é trazida à baila em 1232 e aí temos que esperar. E aí acontece a grande mudança. É claro que aí tenho que fazer uma ponte. Tenho que ir do começo ao fim. Mas é incrível o quanto devemos a uns poucos que fizeram tudo o que temos, que tiveram a coragem de dizer ‘vocês estão errados’. Eles são meus heróis. Mas temos também uma heroína, a primeira, e é ela quem começa tudo, seu nome é Heloísa. A Heloísa de Abelardo, ela é a rainha do livro. Em suma, é isso.


I – Você achou difícil juntar todas essas coisas e chegar a essas conclusões?


C – Ah, não, nenhum problema; foi o material mitológico que me mostrou tudo isso. Não tive problemas em compor as idéias desses livros porque tenho lido esse material por literalmente quarenta anos. O problema foi comprimir tudo em quatro volumes. Minha intenção inicial era um volume, e foi isso que combinei com a Viking Press. Minha cabeça estava estourando e me lembro vividamente que, num dia de manhã, acordei às quatro da manhã sabendo que eram quatro livros, sabendo sobre o que tratariam, engatinhei para fora da cama, de cabeça, para não incomodar minha esposa, e fui ao quarto de estudos e planejei a coisa toda.


I – Engraçado que tanto William James quanto Freud tiveram experiências semelhantes quando estavam nessa fase criativa. Freud acordou às duas da manhã e James, às três.


C – E eu, às quatro…está vendo?…Por isso eu tinha mais a dizer!

Além disso, permito-me ir mais passionalmente do que ia nos livros anteriores porque realmente penso que o clero merece uma boa sova. Eles sabem que o que eles estão ensinando já ficou para trás, mas ficam tentando trazê-lo de volta. Recentemente tenho tido experiências bem agudas nesse contexto. Aqui estou eu, alguém cuja vida toda foi dedicada à mitologia, e a igreja agora, parece, está interessada em mitologia. Então eles me convidam para esses diálogos e triálogos e tetrálogos e assim por diante. E quando coloco o que considero o credo tradicional cristão, até mesmo os padres anglicanos levantam suas mãos e dizem, “Ah, mas não acreditamos mais nisso”.

Mas eles ainda continuam com aquele livro. O que eles acreditam agora é no amor e na humanidade e tudo isso. Eu digo a eles: bem, você acha isso nos Upanishads, em Lao-Tsé; você pode achar isso em qualquer lugar, então qual é a sua declaração? Eles continuam afirmando que são únicos. Ora, São Tomás de Aquino disse que até um grego acreditava em Deus, mas um grego não acreditava que havia um pai, um filho e um espírito santo; que o filho tornou-se homem e foi crucificado e através dessa crucificação redimiu o homem do pecado original. Coloquei isso há apenas cinco dias e o bispo Fulano de Tal disse, “Ah, mas não falamos mais assim”.Então, o que dizem? Ainda assim, eles continuam com aquela reivindicação. Estão protegendo sua fé, estão mesmo - isso é engraçado. Esse movimento ecumênico na Igreja Católica é uma piada porque estão se apegando a sua exclusividade. Estão tentando dizer, sem dizer abertamente, que você tem quer ser batizado para ser salvo - não podem dizer algo diferente e continuar sendo católicos.

O homem é redimido pelo sacrifício de Cristo; participa-se do sacrifício participando dos sacramentos, que foram fundados pelo próprio Cristo e, fora disso, “fora da igreja não há salvação”. E com relação aos protestantes, sempre me lembro do personagem Stephen Dedalus de James Joyce, que diz no final do Retrato, quando lhe perguntam “Você vai se tornar um protestante?”, e ele responde, “Perdi minha fé, mas não perdi o respeito por mim mesmo”.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Convite para um Encontro Biográfico para Casais



Neste 2º semestre de 2008, realizaremos workshops biográficos para casais que estejam vivendo uma crise ou que queiram um melhor entendimento da relação.
Que imagem carrego de mim mesmo? Que imagem que o outro carrega de mim? Que transformações eu preciso fazer para acordar em mim as qualidades que permitirão um maior desenvolvimento dos meus sentidos?

Palestras sobre As leis biográficas e Os encontros humanos, Atividade artística, Escrita individual
EM JUIZ DE FORA:

DATA: 31 de outubro, 01 e 02 de novembro/2008

Início: 31/10 às 19:00h

Término: 02/11 às 18:00h

LOCAL: Pousada Aconchego de Minas, em Juiz de Fora, incluindo café da manhã, lanches (dois intervalos), almoço e jantar.

Coordenadores:

* Rosângela Cunha

Psicóloga, Gestalt-terapeuta e Biógrafa

* Marcelo Guerra

Médico Homeopata, Acupunturista e Biógrafo

INVESTIMENTO: (os valores são por casal)

1ª parcela R$ 250,00 em 10/09/08

2ªparcela R$ 250,00 em 10/10/08

3ªparcela R$ 250,00 em 10/11/08

4ªparcelaR$ 250,00 em 10/12/08
EM TERESÓPOLIS:

DATA: 28 a 30 de novembro/2008

Início: 28/11 às 19:00h

Término: 30/11 às 18:00h

LOCAL: Pousada & Spa Vrindávana, em Teresópolis, na estrada que liga a Nova Friburgo, incluindo café da manhã, lanches (dois intervalos), almoço e jantar.

Coordenadores:

* Rosângela Cunha

Psicóloga, Gestalt-terapeuta e Biógrafa

* Marcelo Guerra

Médico Homeopata, Acupunturista e Biógrafo

INVESTIMENTO: (os valores são por casal)

1ª parcela R$ 320,00 em 10/10/08

2ªparcela R$ 320,00 em 10/11/08

3ªparcela R$ 320,00 em 10/12/08

4ªparcelaR$ 320,00 em 10/01/09

INSCRIÇÕES E INFORMAÇÕES:

Tels. (32) 8841-8660 (Rosângela) - santana@terapiabiografica.com.br

(21) 7602-2365 (Marcelo) - marceloguerra@terapiabiografica.com.br

segunda-feira, abril 14, 2008

Fazendeiro búlgaro troca a mulher por cabra

>>>> Se essa moda pega...
Um fazendeiro búlgaro decidiu trocar a mulher por uma cabra porque a ela não podia ter filhos. A troca aconteceu na Cidade de Plovdiv, na Região Central da Bulgária. Stoil Panayotov trocou sua 3ª mulher, Elena, por uma cabra de 8 anos em um mercado da cidade no mês passado. "Um dia antes, um amigo tinha me dito que ele não tinha sorte com as mulheres e que gostava da minha mulher", disse Panayotov, 54 anos.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Tecendo o Fio do Destino



“Destino?

Agulha no palheiro

onde o homem se procura

O tempo inteiro”

Lindolfo Bell

Cada um de nós nasce com um destino, não como um livro previamente escrito em que cada ato nosso está previsto, mas como uma missão a nós confiada. Isto faz com que a vida tenha um sentido e, muitas vezes, sofremos com angústia ou depressão por não percebê-lo claramente. Os fatos de nossas vidas estão aí para que encontremos o Fio do Destino que, junto com o nosso livre arbítrio, tece os acontecimentos tanto no nosso mundo interior quanto na nossa vida nas comunidades em que vivemos.

Este curso tem o objetivo de buscar o fio do destino de cada um, desembaraçá-lo, tecê-lo de forma diferente, mais confortável, mais de acordo com o sentido que queremos dar para nossas vidas. Para isso trabalharemos com fatos de nossas próprias vidas. Este trabalho será feito com palavras e arte, como aquarela, modelagem em argila, tricô, desenho, contos de fadas, vídeos, teatro, etc. Ninguém precisa ser artista para participar, é claro.

Muitas das questões que nos colocamos hoje são percebidas de modo diferente quando as situamos no contexto mais amplo da vida toda. A troca de experiências de vida num grupo é enriquecedora e suaviza os sentimentos ligados a essas experiências.

O curso será coordenado por Marcelo Guerra, Médico Homeopata, Terapeuta Biográfico em formação. Terá a duração de 10 encontros mensais e um novo grupo começará no Rio de Janeiro, a partir de 12 de abril de 2008. O investimento para cada módulo será de R$100,00 (já incluído o material). As vagas são limitadas e as inscrições e mais informações podem ser obtidas pelo telefone (22) 8112-4983 ou pelo e-mail marceloguerra@terapiabiografica.com.br

"Cada um hospeda dentro de si uma águia. Sente-se portador de um projeto infinito. Quer romper os limites apertados de seu arranjo existencial. Há movimentos na política, na educação e no processo de mundialização que pretendem reduzir-nos a simples galinhas, confinadas aos limites do terreiro. Como vamos dar asas à águia, ganhar altura, integrar também a galinha e sermos heróis de nossa própria saga?" (Leonardo Boff).

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

A Experiência de Estar Perdido - Psicologia de Lost


Daniel Wood


Quando fui convidado por Joyce Werres a escrever um artigo para o IJRS, senti-me um pouco desconcertado. Para determinar alguma medida do meu desconcerto – é de rir, mas é verdade, o fato de que nunca sabemos a exata extensão em que estamos perdidos; caso contrário seria muito fácil reencontrar o caminho – tenho de confessar que não pude responder imediatamente ao convite com um “sim”, ou algo mais concreto, como “Sim, e tenho precisamente algo preparado para essa ocasião”.

Não podia dizer plenamente meu “sim”. Tenho alguns artigos escritos por minha conta, há alguns anos que pratico esse exercício de escrita. Mas não pensei de imediato em publicar nada que tivesse escrito antes, lido ou não por outrem. Achei que o tema devia vir por si, algo que contribuísse para o momento que estou vivendo – pois, outra confissão: escrevo bem e com paixão quando o tema se apossa de mim, e considero isso uma coisa bem à moda de quem se interessa por Carl Gustav Jung e a imensa profundidade e extensão de sua obra.

Não é, pois uma questão de dizer que sei precisamente o que se sucede. Existem lampejos: por exemplo, uso de mim o pouco que sei quando estou escrevendo – escrevo com paixão, mas isso não quer dizer que escrevo como se estivesse cavando um poço na Lua enquanto pulo carnaval em Marte a bordo de uma nave que se dirige a Saturno, e o último período não foi escrito metaforicamente.

Esta semana estou muito sob a influência da questão que permeia a obra de Philip K. Dick, e considero algo muito próprio da psicologia complexa esse contínuo ato de perguntar o que é real e o que é ilusório, em conjunção com “o que é que constitui um autêntico humano”. Está viva em minha mente a tradução que acabei de terminar (há apenas dois dias) do texto em que Dick, considerado um dos maiores autores de ficção científica do século XX (parece-me que um dos prêmios que recebeu postumamente foi de “o maior”), em cuja obra se baseou o cinema ao filmar Blade Runner (Caçador de Andróides), O Pagamento, Screamers, Impostor, Total Recall (O Vingador do Futuro), Scanner Darkly. Uma olhada pela Internet e encontrei pelo menos um curta-metragem baseado em histórias desse escritor. Mas, desconfio sinceramente que temas como Matrix e Cidade das Sombras (Dark City), ou mesmo O Show de Truman, foram baseados, em algum grau, no pensamento inovador que Philip tem ao abordar as duas questões que o afligem.

Também é possível pensar de outro modo, reconhecendo, como de costume, que a revolução que o pensamento junguiano representa para a humanidade está muito longe de ser delimitada. Outra série de ficção científica que fez muito sucesso na década de 1990 foi Babylon 5, cujo autor (J. M. Straczynski) interessava-se explicatamente por Jung.

Romances são escritos, falseando a vida de Jung; mas contá-la de modo impreciso e às vezes até desonesto não é privilégio dos escritores – alguns, que se intitulam biógrafos, também o fazem dando tonalidades obscuras a algo cuja multiplicidade, estrutura e funcionamento precisa ser examinado mais detidamente do que pelo simples olhar de uma sociedade de consumo, uma configuração social que está acostumada a devorar as coisas antes mesmo de ser capaz de saber as conseqüências desse desenfreado apetite.

Há alguns anos isso me faz selecionar continuamente, receoso, o que leio. Assim pensando, cheguei em minha casa para encontrar uma série de TV empilhada ao lado de minha televisão. Fizera o aluguel da série Lost, que tanto lugar recebe dos meios televisivos e jornalísticos nos dias de hoje, sendo chamada, ao lado de Ronaldinho, de “fenômeno”.

Ronaldinho é um fenômeno por correr atrás da bola com maestria, embora não seja muito bom quando se trata de trabalhar em equipe. A série “Lost”, contudo, mostra um bando de gente perdida. Um vôo que se perde ao sobrevoar, desviado de sua rota, uma ilha perdida num lugar qualquer. Sem rádio, sem tevê, sem jornal. Os personagens parecem sobreviventes ao acaso, o que pensaríamos numa situação dessas à primeira vista: o vôo não foi fretado, são pessoas que por razões desconhecidas e em aparência não-congruentes foram parar lado a lado nos assentos de um vôo cuja missão era atravessar o oceano, saindo da Austrália, que os americanos chamam de “down under”. Na própria série os autores fazem questão de explicar, em um dos episódios, o motivo de escolherem (além dos custos) a Austrália como ponto de partida daquele vôo com uma anedota: “eles” (os norte-americanos) chamam a Austrália de “down under” porque é “o mais próximo que se pode chegar do inferno sem cair nele”1. Eu já vira esta expressão noutro filme de ficção “estonteante”, esse tipo de ficção que nos faz perder o rumo das coisas de chofre. Foi em “O Cubo Zero”2. Um personagem desapareceu; ao se fazer menção a ele, perguntando onde se encontra, respondem: “down under”, mas o letreiro da legenda em português diz: “Austrália”. Nada faz supor que aquele personagem tinha ido à Austrália. Ele estava morto, embora isso ainda não fosse revelado. Constata-se a partir disso que “down under” também pode significar a outra alusão à morte – pois, como se diz em português, “lá embaixo” também pode significar “debaixo da terra”.

Estar, porém, “lá embaixo”, remete a um lugar que a civilização não está acostumada a pensar. Não em termos de mapa mundi, pois nós estamos “aqui embaixo”, ou pelo menos é que dizemos quando apontamos no mapa nossa localização. O Sul do Brasil em particular, de onde agora escrevo, está “aqui embaixo” no mapa do mundo, no mapa do Brasil, no mapa da América do Sul.

Mas “embaixo” é uma posição que sempre se refere a algo que se supõe “em cima”. Costuma-se supor que a consciência é uma instância superior, está acima do resto do corpo se a consideramos situada na cabeça. E se o mundo estiver espetado num palito invisível, como uma dessas maçãs sendo assada ao fogo, poder-se-ia supor que a parte de baixo é essa em que estamos como na convenção do mapa – eles o fizeram, eles “lá em cima” o fizeram, então, parece natural, eles suporem que o lugar onde estão suas cabeças, não as nossas, seja “em cima”. Mas se a mão que segura o espeto estiver virada para baixo, então o lugar no mapa em que estamos “embaixo” na verdade é “em cima”.

Tudo é uma questão de perspectiva, o modo de perceber a realidade, e Jung sabia perfeitamente bem disso, pois escreveu a respeito e salientou de vários modos essa circunstância. Einstein também falou sobre o assunto, embora em outros termos, e não tendo em vista, num primeiro momento, a perspectiva psíquica do universo. Para Einstein as linhas de campo gravitacionais que cingem o universo e fazem com que ele esteja dependurado em cordões invisíveis não têm relação imediata com a psique. A Teoria da Relatividade, tanto em sua parte geral quanto em sua parte especial, explica a questão da perspectiva de uma maneira diferente da abordagem junguiana, mas fala de coisas muito próximas à psicologia complexa. A Física também discute a realidade – impossível seria se não o fizesse, pois, se os gregos buscavam a physis, não é por acaso que também investigavam psyche como um dos elementos estreitamente relacionados ao elemento primordial do universo. Se a physis está na geração do universo, a psyche, sendo alma, é a “substância” que anima o universo, como é vento sob as asas da borboleta – e aí a noção de psyche por vezes se confunde com a noção de pneuma, como hoje as religiões confundem, eventualmente, alma com espírito.

Não é à toa que Jung e Pauli colaboraram tanto. O conceito de sincronicidade não é uma invenção como, por exemplo, o automóvel a gasolina. É uma descoberta. É a retirada de uma ponta do véu de Ísis, que recobre todas as coisas. Uma parte do véu de Maya que se desfaz, para de novo recobrir a verdade.

Como não é à toa, em Lost, que os personagens se encontram “ao acaso” e mais tarde os acontecimentos, em plano triplo (passado, presente e futuro se superpõem nas cenas) vão oferecendo razões para deixar claro que onde não há razão aparente existe uma trama profunda cujos ramos só deixam perceber gradações em níveis.

A cada nível de profundidade, descobre-se mais e mais complexidade. Em flashbacks que mostram os passageiros do vôo 815 da Oceanic, um ou outro passageiro recebe o primeiro plano; enquanto isso, outros que aparecem no plano de fundo também são sobreviventes do desastre do vôo 815. Equivale a dizer que, de um modo ou de outro, seus “destinos” estavam sempre se cruzando, até esse momento crucial em que são todos reunidos numa ilha “perdida”. Antes estavam só no mesmo mundo, um planeta “perdido”, mas não “no meio” do Universo – os astrônomos da atualidade declaram de maneira praticamente unânime que estamos3 pendurados numa das pontas da Via Láctea. No entanto, desconfio que, se fosse depender do julgamento da política vigente no mundo, a Via Láctea apareceria no hemisfério superior dos mapas estelares.

É verdade. De certo modo, estamos perdidos. Perdidos no mesmo mundo, uma ilha no grande oceano do infinito. Também em relação a nós mesmos: somos consciência mínima, luz de vela, no meio desse luzeiro imenso, que teimamos em interpretar como escuridão, que é a psique.

De tal modo que só pode fazer sucesso estrondoso uma abordagem que evidencia, a todo o momento, como estamos perdidos, como acabamos nos encontrando uns aos outros e é esse ato de reconhecer nossos pontos em comum, nossos pontos de conexão, que dá tanto sentido a nossas amizades, às nossas afinidades, e ilumina os caminhos da vida, apresentando sinais por onde podemos ir tateando com nossas pequenas velas através da penumbra.

De tal maneira que temos a ilusão de que não estamos perdidos, pois nos encontramos. Topamo-nos, é verdade, de modo relativo. São referências. Temo-las entre uns e outros. Somos brasileiros ou não, gaúchos ou não, paranaenses ou não, entendemos essa ou aquela língua, nascemos neste ou naquele dia, nesta ou naquela hora, e tudo isso é absolutamente relativo. Não me parece que questionemos nossa existência, isto é, se escrevo isso, se leio isso, é porque existo. Não parece que sonho a escrita, ou que a escrita me sonha lendo. Mas os leitores que conhecem Memórias, Sonhos e Reflexões hão de se lembrar da visão de Jung de que ele era a visão de um iogue, e que esse iogue, ao parar de meditar, cessaria sua (a de Jung) existência. É o que diz Philip Dick: se Deus nos pensa, existimos. Se Deus parar de nos pensar, deixamos de ser, coisa bastante estranha para o pensamento que se crê “no topo do mundo”, mas um tanto natural para quem sabe que está “embaixo”.

Alguns se atrevem a pensar que, se não pensamos em Deus, ele não existe. Mas isso ou é uma falácia, um exercício inconseqüente de retórica, ou um convite à possessão e, por que não, à loucura também, caso de Nietzsche, segundo consta.

Não é possível matar a Deus sem ter – antes disso – de enfrentar as conseqüências de, pelo menos, perder-se, para, se for possível o reencontro, descobrir que de fato, como disseram os antigos, Deus é imortal e também (embora não apenas) por isso é Deus.

Estar perdido também pode ser sinônimo de estar à beira do inferno, lá embaixo. A loucura tem algo de semelhante a isso, podemos pensar neste instante. Quando Jung faz a metáfora de que é uma consciência mínima, uma vela que deve ser tomada com muito cuidado para permitir iluminar na escuridão, tem essa noção imprecisa que temos – os estudantes da psique – de que os limites entre loucura e sanidade são bastante tênues.

Podemos, aliás, pensar que a loucura não existe. Então, desaparecem os limites. Mas se pensarmos que a loucura é um dos graus da realidade4, também poderemos ter graus de sanidade5 como sendo degraus que ocupamos na escada que visa nos levar ao que em tese almejamos: sermos autenticamente humanos, não estarmos mais perdidos, sermos capazes de localizar com precisão nosso lugar e nossa essência não só no espaço e no tempo, mas em relação ao que sabemos de nós mesmos e dos outros, semelhantes ou não. Mas a loucura existe na medida em que somos capazes de atribuir, mesmo com todo o sentido de que somos capazes, a nós ou a outrem essa coisa nonsense de cavar buracos na Lua enquanto se pula carnaval em Marte no meio de uma viagem a Saturno6. É que, com tudo que podemos compreender também podemos nos recusar, conscientemente ou não, a fazê-lo.

Então atribuir um nome ao outro mantém nosso lugar seguro: “é louco”, “está perdido”, fica “lá embaixo”. Ou seja, “não é comigo”. São eles que estão Lost, eu estou aqui, sentado confortavelmente na frente da televisão, comendo pizza, tomando refrigerante. Do que será feito esse tempero? Cenas dos próximos capítulos. Cenas dos capítulos anteriores.

É também por isso que Lost faz sentido. Não apenas porque descreve metaforicamente a situação do mundo hoje, mas porque sempre se pode pensar que o que está ali não é verdade, enquanto eu, que tenho o controle remoto nas mãos, sou dono da verdade, tenha ou não que trabalhar amanhã, tenha ou não que dar um sentido e uma conclusão minimamente interessantes ao que escrevo, penso e vivo. Eu é que existo, eles não. A menos que eles possam me ver na tevê e me desligar com o controle remoto, mas isso é um absurdo.

No entanto, a mente infantil é capaz de crer nisso. Crer que Deus é dono do controle remoto que pode desligar todas as histórias em todas as televisões, ou que o detentor da suprema realidade é aquele que pode derradeiramente determinar se existimos ou não, e se vivemos os três tempos ou apenas um deles, se seremos fenômeno ou não. Pelo menos achamos que só a mente infantil é capaz disso.

Pode-se pensar que são divagações filosóficas de um diletante, talvez alguém que leu demais ou de menos, e não chegou à conclusão alguma – aliás, difícil chegar a qualquer conclusão simplesmente lendo.

É preciso viver, é preciso escrever no livro da vida, é preciso no livro da vida se inscrever.

Por isso Jung reputava tão vital para o ser e a individuação as rotinas da vida, essa circunstância de ter algo a que se agarrar, essa referência a partir da qual podemos nos determinar como humanos autênticos, que Philip Dick faz questão de citar em seu texto Como Construir Um Universo Que Não Se Despedaça Dois Dias Depois.

Ter uma família, alguém a quem amamos; uma missão na vida; um cachorro, talvez um urso de pelúcia. É outro aspecto de Lost cujos personagens sentem falta, a rotina da vida cotidiana. No entanto, em Roma, fazer como os romanos. É preciso adaptar-se à vida também, criando rotinas. Quanto ao cachorro, Jung cita, quando fala da participation mistique: “você e seu cachorro no escuro”. Ter alguém (ou algo) a quem (ou ao qual) se agarrar mesmo na escuridão – embora possamos pensar que no escuro é muito fácil criar participação mística com o que quer que seja.

Por isso também encontramos projeções: encontramos no mundo os aspectos que nos permitem fazer nele nossas almas, à semelhança do que Hillman disse, que “o mundo é lugar de fazer alma”.

Reconhecemo-nos também no mundo, para que possamos nos reconhecer em nós mesmos: perdidos, para que possamos nos descobrir. A Oração de São Francisco de Assis é neste aspecto uma lição de sabedoria: “Que eu procure mais…” fazer do que ser feito – amar que ser amado, compreender que ser compreendido. Levar a luz às trevas, a esperança ao desespero. Ser capaz de viver a realidade e não a ilusão, e ser capaz de manifestar, na ilusão, a realidade. Coisas tão simples quando escritas e tão incrivelmente difíceis na realidade.

“Pois é morrendo que se vive…”, porque, ao chegar lá embaixo, ou nos limites dessa situação, com freqüência surge uma oportunidade maravilhosa, algo que, dado um mínimo de percepção, nos iça de volta ao limiar da consciência e nos permite retornar à vida. Perdidos, pois precisamos ser encontrados.

Assim é que Lost é um apelo, um chamado de e para o homem moderno. Não é para os que já sabem se sustentar e viver de si mesmos: os personagens são tontos da cidade moderna que mal sabem o que fazer no mato: um médico que não consegue reconhecer nas plantas à sua volta as substâncias de que a medicina depende; um construtor que encontra uma paisagem nua, mas não quer construir nela, quer voltar para a “civilização”, onde tudo já parece estar construído. Não há um padre, não sabem sequer fazer um ritual fúnebre, o que equivale a dizer que não têm respeito suficiente pelos mortos, e isso também que nossa sociedade perdeu a ligação com seu próprio passado.

Há em Lost dois homens que sabem fazer muitas coisas: um era paralítico na sociedade moderna; vivia amarrado a uma cadeira de rodas, enganado pelo próprio pai e pela própria mãe7, trabalhando em uma fábrica de caixas de papel, sonhando em ser um grande explorador, um caçador e um sábio, coisa que se torna ao se encontrar na ilha, um rei, com um olho em terra de cegos. O outro, um iraquiano, ex-torturador na Guarda Republicana do Iraque, aprendeu em seu ofício de guerra a refletir sobre o valor da vida e do amor; parece por vezes ter mais consideração pelo ser humano do que os “civilizados”. É dos árabes que vem de resgate a alquimia, de descoberta a álgebra, de invenção o algarismo entre outros objetos das ciências cuja perspectiva inicial foi perdida de vista pela civilização fragmentária que esqueceu o rumo e caiu, em pleno vôo, rumo a uma ilha onde é obrigatório reconhecer que não é possível viver só. Há uma mulher, coreana, que sabe cultivar plantas, e serve de elo entre o oriente e o ocidente. Seu marido, coreano também, é o único que parece saber alguma coisa sobre a pesca. Ambos representam, relutantemente, ligações entre o homem e a natureza – os ocidentais falam de ecologia, mas sua cultura é aquela que mais se distancia dela.

Tais personagens sugerem que aquilo que em nossa civilização pode dar condições de conhecimento de si mesmo está engessado. A exemplo disso o médico, que é o líder da turma toda, está constantemente envolto em questões que o fazem questionar sua própria capacidade de decidir, tanto quanto a de crer. É que a ciência também está engessando a criatividade humana, na medida em que constrói impedimentos à fé, pois toda criação parte de um ato de fé. Se o ser humano não puder ter o numinoso como elemento fundamental de sua existência, será difícil justificar qualquer de seus inventos.

Isso também faz lembrar o Egito, cuja civilização durou milhares de anos: o númeno era o elemento fundamental, central, da construção da civilização egípcia. Aliás, os grandes monumentos da história representam não o que há de cotidiano e banal no homem, mas o que está muito além da aspiração diária. São representantes das “esferas fixas” em torno das quais gira o universo, segundo Hermes Trismegistus; são também elementos a priori, não funções, mas coisas anteriores mesmo às idéias; são geradores de idéias, ideais; arquétipos, fundamentos da vida.

O apelo de Jung está mais vivo do que nunca. É preciso conferir a todos os atos da vida o fundamento psíquico, para que as coisas sejam aquilo que na verdade são, isto é, representantes do ser e facilitadores do devir.

E pareceu-me, enfim, que estas estão entre as principais razões do sucesso “fenomênico” de Lost: é que por trás do fenômeno está o númeno, e este impulsiona àquele, sem o qual o fenômeno, destituído de alma, torna-se, no máximo, simples “coincidência”. Em Lost a princípio parece não haver númeno entre os sobreviventes do vôo que caiu, mas há a floresta, a ilha, o oceano, os perigos, e todos paulatinamente se revelam interrelacionados, além do presente, com o passado dos sobreviventes e seus destinos. Pois parece ser preciso destacar para o ser humano uma situação que lhe ofereça um deslocamento em relação ao seu cotidiano para que possa perceber, nas entrelinhas, o que também está presente no cotidiano, mas que é tão invisível, porque estamos perceptivamente embotados em relação a nossa vida diária, e esse embotamento é tão endêmico, tão subjacente a esta nossa sociedade, que o “mal do século” – segundo se dizia no início do ano 2000 em relação à depressão – não foi resolvido, nem sequer foi conhecido como elemento necessário à transformação social.

1 Numa de conversa de bar em Sidney, o pai de um dos protagonistas – o médico Jack – conversa com outros dos protagonistas, Sawyer, sobre a bebida e a Austrália, em um flashback da passagem de Sawyer pela Autrália.
2 São três filmes: O Cubo, o Cubo Dois e o Cubo Zero, que cronologicamente se situa antes do “Cubo”, mas foi o último a ser produzido.
3 Muita gente considera obra do acaso o fato de que estamos, uns sete bilhões de habitantes humanos e outros tantos seres vivos, neste mesmo planeta, com tantos lugares no universo para se estar!
4 Assim como é um dos graus da percepção da realidade.
5 Ser são, aliás, não significa que aquilo que percebemos é aquilo que é – longe disso.
6 Aliás, em termos psíquicos isso é possível, ou não teríamos formulado a hipótese. Se pode ser escrito, é porque pode ser imaginado. Muitas coisas podem ocorrer no campo da psique, embora nunca se manifestem, sabem isso pelo menos os junguianos. Daí que a realidade psíquica é tão mais abrangente que a física, porque a última é manifesta, mas a primeira está no campo da criação das coisas.
7 Num dos episódios, já adulto, após anos de vida como órfão, é enganado por sua mãe e pai de modo a doar um dos rins para o pai; em seguida é posto de lado. No entanto, na ilha é o maior portador da fé. Acredita num aspecto transcendental da vida que o reabilitou.

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Agenda de Terapia Biográfica

"Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, acorda”. Carl Gustav Jung

Fevereiro

Continuam as entrevistas prévias para interessados em participar dos grupos de Terapia Biográfica. Marcar pelo e-mail marceloguerra@terapiabiografica.com ou pelo telefone (22)8112-4983.

16 de Fevereiro: início do seminário Tecendo o Fio do Destino, no Centro Educacional Vale Encantado, em Duas Barras (RJ), às 14h. Não há mais vagas! Se tiver interesse, entre em contato para ser avisado do próximo seminário.

21 de Fevereiro:
início do grupo 1 de Terapia Biográfica. Horário: quintas-feiras às 18:30h, quinzenalmente. Inscreva-se já!

22 de fevereiro: início do grupo Compartilhando Histórias de Vida, para pessoas da terceira idade. Horário: sextas-feiras às 13:30h, quinzenalmente. Inscreva-se já!

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Educação em Discussão

>>Esta semana, dois artigos discutem dois mitos sempre presentes quando se fala em educação: o de que o uso de computadores melhora o desempenho escolar e o de que os professores melhoram seu desempenho ganhando melhor. Veja abaixo as duas matérias:



O uso intenso de PCs piora o desempenho escolar

SÃO PAULO - O uso intenso de PCs piora o desempenho escolar, sugerem dados de uma pesquisa da Unicamp.

“O resultado mais importante… surgiu quando os estudantes disseram sempre usar o computador. Entre esses, não importou a classe social ou disciplina, o desempenho foi sempre pior do que entre os que nunca usaram”, disse Jacques Wainer, do Instituto de Computação da Unicamp, à Agência Fapesp (http://www.agencia.fapesp.br), que divulgou o estudo.

Entre os alunos da 8a série, o quadro foi semelhante. Wainer e Tom Dwyer, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, coordenaram a pesquisa.

Os resultados mostraram, por exemplo, que na 4a série os estudantes de classe alta que raramente usaram o computador para as tarefas tiveram, em média, 15 pontos a menos do que os que nunca o fizeram, tanto em português quanto em matemática.

Já entre os alunos mais pobres que usaram computador, mesmo que raramente, houve uma piora mais acentuada nas notas em relação aos estudantes que nunca usaram PCs. Esse grupo apresentou uma diferença média de 25 pontos em português e 15 pontos em matemática.

A pesquisa utilizou dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), exame aplicado em todos os Estados a alunos de 4a e 8a séries do ensino fundamental e da 3a série do ensino médio.

OTIMISMO NO PLANALTO

O governo federal tem promovido esforços para melhorar a inclusão digital e tenta por uma segunda vez realizar uma licitação para compra de 150 mil notebooks educacionais de baixo custo para distribuição entre alunos do ensino fundamental de 300 escolas do país. A primeira tentativa não atendeu às exigências de preço do governo.

O assessor da Presidência da República José Luiz Aquino, que trabalha no projeto Um Computador por Aluno (UCA), afirmou em entrevista por telefone que há diferenças entre o uso de computadores em laboratórios de informática, em que as máquinas são compartilhadas por vários alunos, e o projeto do governo em que os estudantes poderiam levar para casa os equipamentos no futuro.

“Queremos testar nas 300 escolas ainda este ano para sabermos os resultados (no desempenho dos alunos), mas piora eu tenho certeza que não vai acontecer. Nosso modelo é diferente”, disse Aquino, que preferiu não comentar imediatamente os resultados da pesquisa. A Secretaria de Educação à Distância do Ministério da Educação também não quis comentar o estudo, informando que ainda não tivera tempo suficiente para examiná-lo.

Apesar de o trabalho detectar uma relação entre o uso do computador e piora nas notas, os autores não conseguem identificar, sem mais levantamentos, os motivos para o quadro nem porque o efeito da inclusão digital entre alunos mais pobres ser mais grave.

“Nossos resultados devem inspirar profundas interrogações entre todos aqueles que apóiam o uso de computadores no sistema escolar e nos lares e telecentros da nação, em nome da luta contra uma suposta ´desigualdade digital”´, afirma a pesquisa “Desvendendo Mitos: Os Computadores e o Desempenho no Sistema Escolar”, disponível em http://www.scielo.br.

“Como o computador é bom para nós, professores, por exemplo, tendemos a achar que ele é útil para todos. Mas ele não é uma solução mágica para a educação”, disse Wainer à agência.
Reuters



Salário de professor
“A experiência dos estados mais bem-sucedidos mostra que consertar a educação requer muito mais do que jogar dinheiro no sistema”
Claudio de Moura Castro

Segundo afirmativa corrente, os professores da educação básica ganham pouco, por isso a educação é ruim. Como tenho a infeliz sina de acreditar na ciência, para mim isso é assunto de contar e medir. Ganhar pouco ou muito é uma questão relativa (como se viu pelas discussões sobre salários de deputados e juízes). Portanto, só tem sentido a comparação com categorias equivalentes. Com Gustavo Ioschpe, fiz uma revisão de duas pesquisas meticulosas, cotejando o salário dos professores com o de outros grupos profissionais na América Latina. Os resultados colidem com os mitos. Em confronto com pessoas de educação equivalente, os professores não ganham menos. Calculando-se os salários-hora, aumenta a superioridade salarial dos mestres, inclusive dos brasileiros. Ou seja, não se pode dizer que os professores ganham mal, considerando a remuneração de profissionais com igual escolaridade. Há significativas variações, de estado para estado, sendo alguns professores realmente mal pagos. Mas, como a educação é ruim na média, faz sentido comparar salários de professores, também na média. Outro estudo interessante nos é dado por uma pesquisa recente de Samuel Pessoa, na qual o autor confronta os salários do sistema privado com os do sistema público. Em contraste com as conversas de botequim, em média os salários do setor privado são ligeiramente inferiores, apesar da ampla superioridade no desempenho dos seus alunos. Mais um abalo sísmico nos castelos da imaginação. Outra maneira de ver o assunto é perguntar se a salários maiores corresponde um ensino de qualidade superior. Filosofar não resolve. Faz mais sentido calcular os coeficientes de correlação. No caso, esses números medem a probabilidade de que salários mais altos dos professores ocorram nos sistemas estaduais com melhor educação – medida por um índice de desenvolvimento da educação básica (Ideb) mais elevado. Foram tomadas várias definições de salário: do ensino médio, do fundamental, salário-hora, com e sem gratificação e, também, o orçamento estadual para a educação (per capita). Os resultados são sempre os mesmos, quaisquer que sejam as definições. Não há nenhuma associação entre salário alto e educação boa. Os estados com desempenho superior no ensino tanto podem pagar bem como mal. Por exemplo, Alagoas e Amazonas pagam muito e têm desempenho fraco. Minas e Santa Catarina pagam pouco e estão no topo da lista do Ideb. Só há uma conclusão possível da análise de tais números: a má qualidade do nosso ensino não pode ser explicada pelos salários dos professores. Não se trata de metafísica nem de imponderáveis. Quem discordar dessa afirmativa que trate de demonstrar que os números estão errados. Mas, remexendo outros números, podemos encontrar algumas pistas intrigantes. Pesquisa recente indicou que 80% dos professores da rede pública estavam insatisfeitos e com sua auto-estima chamuscada. Já em uma pesquisa com escolas privadas de todo o Brasil, verifiquei que 80% dos professores estavam satisfeitos. Ou seja, com níveis salariais parecidos, as escolas privadas – não apenas as de elite – atraem melhores professores e os mantêm contentes. Não há dados confiáveis, mas parece que os professores estão também contentes nas públicas bem lideradas.
Se essas idéias fazem sentido, os sistemas públicos ganhariam em qualidade se conseguissem criar um ambiente mais positivo e estimulante para os seus professores. Como a escola tem a cara do diretor, a sua escolha irresponsável arruína o ensino. Onde isso ocorre, os professores se sentem desvalorizados e manipulados pela burocracia. Os mais graves pepinos estão no clientelismo do governo local. A politicagem passa na frente das preocupações com a qualidade. A carreira do magistério é leniente com malandros e incompetentes. É a “incompetência ignorada, a competência não reconhecida”. No fim das contas, a experiência dos estados mais bem-sucedidos mostra que consertar a educação requer muito mais do que jogar dinheiro no sistema.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Tem louco pra tudo mesmo...


Campeão da Copa América em sua estréia como treinador, Dunga tem mais motivos a comemorar pelo ano de 2007: o técnico da seleção brasileira foi eleito o melhor do ano pela Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol (IFFHS).

A organização somou os votos de representantes de 93 países. Dunga ficou em primeiro na frente de Slaven Bilic, da Croácia. O terceiro colocado também é brasileiro: Jorvan Vieira, que levou o Iraque ao histórico título da Copa da Ásia.

Luiz Felipe Scolari, treinador de Portugal, ficou com a décima colocação, empatado com Alfio Basile, da Argentina. O outro brasileiro da lista é Hélio dos Anjos, em 24º, após ter sido vice-campeão asiático com a Arábia Saudita.

Pela primeira vez, uma mulher entra na relação. Trata-se de Silvia Neid, que levou a Alemanha ao título mundial na final contra o Brasil.

O vencedor da eleição de 2006 foi Marcello Lippi, que havia sido campeão da Copa pela Itália. O melhor colocado foi Scolari, em quarto.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Quer ficar rico? Abra um cartório no RJ!


Reajustes podem passar de mil por cento, mas usuário não pagará mais por alguns itens

O Projeto de Lei 1.099/07 está tramitando na Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) com a proposta de modificar e reajustar as taxas cobradas pelos cartórios. A medida pode afetar, por exemplo, quem se casar de papel passado no estado, pois haverá aumento das despesas de cartório. Caso a proposta seja aprovada pelos deputados estaduais, os casais terão que arcar com um aumento de 208%.
Os mais idosos, que recebem benefícios da Previdência Social, também podem ser afetados com os reajustes. Aqueles que precisarem nomear um representante legal terão uma correção de 485%. Outro exemplo: o procedimento de reconhecimento de firma pode ter uma alta de 971%. Uma autenticação de documento terá uma elevação de 792%.
O projeto de lei que reajusta as taxas de cartórios foi encaminhado à Alerj pelo presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-Rio), Murta Ribeiro. Os reajustes podem passar de mil por cento para certos serviços, como registros de imóveis, porém, segundo a Corregedoria do TJ-Rio, as correções não serão tão altas porque o usuário não pagará mais por alguns serviços que hoje são obrigatórios. Se o projeto for aprovado na Alerj, o aumento das taxas vai pesar ainda mais no bolso de quem comprar um imóvel e registrá-lo em seu nome. Os percentuais de reajuste variam de 102 a 188%. No entanto, o projeto continua assegurando o desconto de 50% no caso de primeira aquisição imobiliária para fins residenciais, desde que o imóvel tenha sido adquirido pelo Sistema Financeiro de Habitação (SFH).

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Administração Holística: Empresas salvando o planeta


Isa Magalhães, jornal O Povo (Ceará)
Atualmente, devido à crise ecológica mundial nossa grande pergunta é: comoá nos relacionar com o planeta Terra para preservá-lo? Parar de ameaçar o planeta para garantir a vida e a existência de todos os seres que aqui convivem será o grande desafio dos próximos anos.

Acredito que a única resposta viável é buscarmos uma maneira de vida onde as condições não ameacem os que vivem no presente e os que virão no futuro. Ou seja, centrarmos nossa vida no respeito e na solidariedade para com todos os seres, humanos e não humanos, é a única saída viável. Mas como fazer isso? Como abrir mão de um estilo de vida consumista e predatório que desenvolvemos nos últimos séculos? Esse é o desafio mais difícil para os governos e nações, porquanto, isso só será possível através de uma ampla educação que conscientize profundamente a todos.

Quando colocamos a vida no centro de tudo, tornando-a o foco maior, geramos uma visão biocêntrica onde as questões existenciais tornam-se o ponto central. Daí nasce um novo projeto educacional que reconhece o ser humano em sua multidimensionalidade, (dimensões física, biológica, mental, psicológica, espiritual, cultural e social). Esse processo é o inicio da nossa integração interna com o meio ambiente externo. Somente a conscientização que vem de dentro é possível mudar algo fora.

Para alcançarmos esse desenvolvimento, precisamos da ajuda das empresas, hoje o maior poder no planeta Terra. E esse pensamento exige novas mudanças no perceber e pensar a vida, na gestão das empresas. Aqui entra a visão da Administração Antroposófica, uma palavra que vem do grego e significa "conhecimento do ser humano", uma nova postura que cria as condições necessárias para este momento delicado em que vivemos.

No pensar antropocêntrico, a consciência e a totalidade do que é vivo penetra no modelo administrativo e entende a empresa também como um ser vivo que se manifesta de muitas maneiras. Para que isso aconteça, a proposta é a formação e capacitação das lideranças segundo a metáfora ôde pontes®, ou seja, criar pontes entre as pessoas e os negócios. Pontes da identificação, para os colaboradores se identificarem com a cultura da empresa e sua missão; pontes da Motivação, do Respeito, da Dedicação e da Segurança, onde todos possam dar o seu melhor.

Essa visão leva a Responsabilidade Social interna que se estende além dos muros e toma a sociedade como um todo. Dessa forma, as empresas colaboram com a ecologia se percebendo como a principal agente de construção ou destruição do meio ambiente. áAfinal as empresas são entidades formadas por indivíduos que reproduzem suas ações humanas no mercado em que atuam e na sociedade em geral.

A abordagem da antroposofia no trabalho se diferencia por entender as organizações através de conceitos holísticos práticos, que podem ajudar a empresa a perceber seu verdadeiro papel na sociedade, com plena consciência de que quem faz acontecer as mudanças nas empresas são as pessoas que as compõem.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Trailer do novo filme Speed Racer


Dirigido pelos irmãos Warchowsky, que dirigiram Matrix, estréia prevista em maio de 2008.

Novas regras para TV por assinatura

Vivian Pereira Nunes, O Globo Online

RIO - Quem tiver contratado um serviço de TV por assinatura não precisará mais pagar para usar um ponto-extra (com decodificador) ou uma extensão a partir de junho de 2008, independentemente do tipo de plano ao qual aderiu.

Esta é uma das novas regras previstas pelo Regulamento de Proteção e Defesa dos Direitos dos Assinantes dos Serviços de Televisão por Assinatura, divulgado no final desta quarta-feira pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

As empresas de TV por assinatura terão 180 dias para se adequar às normas e mudar o relacionamento com os usuários dos 28,6 milhões de domicílios brasileiros atendidos pelo serviço.

Como conseqüência da divulgação do novo regulamento da Anatel para o setor, segundo analistas, as ações da NET foram destaque de queda nesta quinta-feira, com perdas de 7,21%, a R$ 24,58. Entretanto, não parece que as empresas prestadoras do serviço vão contestar o novo regulamento, que foi amplamente debatido, em diferentes instâncias, durante três anos.

A própria NET emitiu uma nota, por meio de sua assessoria de imprensa, informando que vai se adequar às novas normas no prazo estipulado. Entretanto, a empresa e outras companhias do setor já batalham contra decisões judiciais em vários estados que as proíbem de cobrar pelo ponto adicional e podem dar margem a indenizações aos consumidores que se sentirem lesados pelas cobranças passadas.
Quem quiser ponto-extra vai pagar só pela ativação do decodificador

O ponto-extra e a extensão não serão cobradas, entretanto, se o consumidor que contratou o serviço de TV por assinatura desejar que a empresa faça a instalação, terá que pagar por isso. Também terá que pagar, uma única vez, pela ativação de um novo decodificador.

O novo regulamento da Anatel garante ainda ao usuário o direito de pedir, sem custos, a suspensão do serviço por períodos entre 30 e 120 dias, uma única vez em um período de 12 meses.

Outros itens de destaque são o que prevê o pagamento, em dobro e em dinheiro, das quantias pagas em decorrência de cobrança indevida feita pela prestadora e o que estipula o abatimento do valor proporcional da assinatura em caso de interrupção do serviço superior a 30 minutos.

O documento estipula também o prazo de cinco dias úteis como limite para a solução de problemas com os assinantes e a existência de uma central de atendimento telefônica com ligação gratuita para o consumidor.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Ginástica emagrece?????


>>> Na verdade, mais importante que emagrecer é ter saúde, e a atividade física é fundamental para isto!

Durante décadas, o culto ao exercício físico tem sido um sinônimo da luta pelo emagrecimento. Mas a ciência nunca conseguiu provar que uma coisa realmente leva à outra

Gary Taubes
Vamos começar com algumas perguntas para pensar durante os 30 (ou 60 ou 90) minutos que você gasta queimando calorias na academia todos os dias ou, talvez, enquanto se sente culpado por não fazer isso. Se os magros são fisicamente mais ativos que os gordos - um fato inquestionável para a ciência às vezes obscura do controle de peso -, isso quer dizer que malhar transformará uma pessoa gorda em uma pessoa magra? E isso quer dizer que ficar sentado no sofá transformará uma pessoa magra em uma pessoa gorda? Que tal uma variação matemática sobre essas questões?

Digamos que freqüentamos a academia e queimamos 3.500 calorias toda semana. Isso são 700 calorias por sessão, cinco vezes por semana. Se meio quilo de gordura equivale a 3.500 calorias, isso quer dizer que ficaremos meio quilo mais magros para cada semana de exercício? E que continuaremos a perder peso nesse ritmo enquanto continuarmos a nos exercitar?

Para a maioria de nós, o medo do excesso de gordura é a razão para nos exercitarmos e a maior motivação que nos leva à academia. É por isso também que as autoridades da área da saúde têm incentivado mais exercícios como parte de uma vida mais saudável. Se estivermos gordos, ou mais gordos do que deveríamos, nos exercitamos. Queimamos calorias. Gastamos energia. Continua gordo? Queime mais. As diretrizes do Departamento de Agricultura dos EUA para uma dieta saudável, por exemplo, recomendam que nos empenhemos em fazer uma hora de atividade física "de moderada a mais vigorosa", apenas para manter o peso, ou seja, que nos impeça de engordar. Considerando a ambigüidade da mensagem e a simplicidade do conceito - queime calorias, perca peso -, não seria bom crer que isso é verdade? A pegadinha é que a ciência sugere que não. Logo, todas as respostas para as questões acima são negativas.

A Associação Americana do Coração e a Faculdade Americana de Esportes e Medicina publicaram um novo guia em setembro. Ele sugere que 30 minutos de atividade física moderada, cinco dias por semana, bastam para "promover e manter a saúde". O guia não afirma que mais exercício leva à perda de peso. Na verdade, o melhor que ele poderia dizer sobre essa relação seria algo como "é razoável acreditar que pessoas com gastos relativamente altos de energia teriam menor propensão ao ganho de peso se comparadas àquelas com um gasto de energia menor".

Em outras palavras, apesar do meio século de esforços para provar o contrário, os cientistas ainda não conseguem dizer que exercícios nos ajudam a manter mais quilos longe de nós. Os 30 minutos recomendados pelo relatório são o ponto de partida de recentes guias de outras organizações - como o Instituto de Medicina das Academias Americanas e a Associação Internacional para Estudos sobre Obesidade.

As bases do tal relatório foram publicadas em 2000 por dois pesquisadores finlandeses que analisaram todas as pesquisas relevantes sobre peso e exercício dos 20 anos anteriores. Ainda assim, o relatório finlandês dificilmente pode ser visto como a solução da questão. Quando os pesquisadores viram os resultados de dúzias dos mais bem construídos experimentos em manutenção de peso - seguidores de dieta que tentavam manter a linha -, eles descobriram que todos voltaram a engordar. E, dependendo do experimento, os exercícios podiam derrubar as taxas desse ganho de peso (-90 g por mês) ou aumentá-las (50 g por mês). Como os próprios finlandeses concluíram, a relação entre exercício e peso é "mais complexa" do que eles imaginaram.

Isso não é dizer que não há excelentes razões para sermos fisicamente ativos (veja quadro "Ruim com eles, pior sem eles"). Podemos apenas curtir exercícios. Podemos melhorar nosso físico como um todo, podemos viver mais - reduzindo nosso risco de sofrer de doenças cardíacas ou diabetes - e provavelmente nos sentiremos melhor com nós mesmos.

Uma coisa que se pode dizer sobre exercícios, com alguma certeza, é que eles tendem a nos deixar com fome. Se queimarmos mais calorias, teremos boas chances de consumir mais calorias.

É difícil conseguir que autoridades da área da saúde dos EUA falem sobre a falta de coerência entre suas recomendações oficiais e as evidências científicas que as fundamentam. Elas querem encorajar uma nação obesa a exercitar-se, mesmo que não existam bases científicas para isso. Vejamos um exemplo. Steve Blair, professor da Universidade da Carolina do Sul e co-autor do guia do Instituto de Medicina das Academias Americanas e da Associação Internacional para Estudos sobre Obesidade, diz que era "baixo, gordo e careca" quando começou a correr aos 30 anos. Agora, aos 68, ele é baixo, mais gordo e mais careca. Ao longo das décadas, ele estima ter corrido quase 129.000 km e ganho mais ou menos 15 quilos.

Quando perguntei a Blair se ele achava que seria mais magro se tivesse corrido ainda mais, ele teve que parar para pensar. "Eu não vejo como eu poderia ter sido mais ativo", disse. "Trinta anos atrás, eu corria 80 km por semana. Mas, se eu pudesse ter me exercitado por duas ou três horas por dia nas últimas duas décadas, talvez não tivesse ganho tanto peso." Mas talvez ele tivesse engordado do mesmo jeito. Se confiarmos no relatório do Instituto de Medicina das Academias Americanas e da Associação Internacional para Estudos sobre Obesidade, que ele co-escreveu, há poucas razões para acreditar que o tanto que ele correu fez alguma diferença. Apesar de tudo, Blair acredita que seria mais gordo se não corresse. Por quê?

Houve um tempo em que ninguém acreditava que exercícios podiam ajudar alguém a perder peso. Até os anos 1960, clínicos que tratavam de pessoas acima do peso e obesas consideravam a idéia ingênua. Quando Russel Wilder - um especialista em obesidade e diabetes - deu uma palestra sobre excesso de peso em 1932, disse que seus pacientes tendiam a emagrecer mais se ficassem em repouso, "já que exercícios muito severos diminuem a taxa de perda de peso".

O problema, como ele e seus contemporâneos constataram, é que exercícios leves queimam um número insignificante de calorias, quantidades que são superadas por pequenas mudanças na dieta. Em 1942, Louis Newburgh, pesquisador da Universidade de Michigan, calculou que um homem de mais ou menos 114 quilos gasta apenas 3 calorias subindo um lance de escadas, o equivalente à privação de um quarto de colher de chá de açúcar ou a 0,28 grama de manteiga. "Ele terá que subir 20 lances de escada para se livrar da energia contida em uma fatia de pão!", observou Newburgh.

Esses médicos depois concluíram que exercícios mais intensos não ajudam porque aumentam o apetite. "Um exercício de musculação vigoroso geralmente resulta em uma demanda imediata de uma boa refeição", notou Hugo Rony, da Universidade de Northwestern (EUA), em seu livro de 1940, "Obesidade e Magreza". "Gastos altos ou baixos resultam em níveis altos ou baixos de apetite. Sendo assim, homens praticando exercício físico pesado comem mais do que outros envolvidos em ocupações sedentárias. Estatísticas mostram que a média de consumo diário de lenhadores supera 5.000 calorias, enquanto que a de alfaiates é de apenas 2.500. Pessoas que mudam suas atividades de leves para pesadas, ou vice-versa, logo desenvolvem mudanças correspondentes em seus apetites." Se um alfaiate virar um lenhador e começar a comer como um, por que não acreditar que o mesmo não irá ocorrer com um alfaiate obeso que decide malhar como um lenhador todos os dias?

Acreditamos no contrário graças ao nutricionista Jean Mayer. Ele começou sua carreira na Universidade de Harvard no início dos anos 1950 e tornou-se o profissional de sua área mais influente dos EUA. Foi presidente da Universidade de Tufts, onde hoje há o Centro Jean Mayer para Pesquisa em Nutrição Humana e Envelhecimento, por 16 anos. Como autoridade em controle de peso humano, estava entre os pioneiros de uma nova geração. Seus predecessores foram todos médicos que trabalharam de perto com obesos e pacientes acima do peso. Mayer, não. Seu treinamento foi em química fisiológica, e ele obteve seu doutorado com uma dissertação sobre a relação das vitaminas A e C em ratos. Nas décadas seguintes, publicou centenas de trabalhos sobre diferentes aspectos da nutrição, incluindo a razão de ficarmos gordos. Mas ele nunca tratou de pacientes obesos em sua rotina.

Já em 1953, depois de alguns anos de pesquisa com ratos em laboratório, Mayer começou a enaltecer as virtudes do exercício para o controle de peso. Em 1959, o jornal "The New York Times" deu crédito a ele por ter "derrubado teorias populares" de que o exercício tinha papel secundário no controle de peso. Mayer sabia que, muitas vezes, obesos comem o mesmo que pessoas magras - ocasionalmente, até menos. Isso parecia excluir a gula como causa do ganho de quilos extras.

Nos anos 1960, Mayer documentou a relação entre a inatividade e o excesso de peso. Ele notou que adolescentes gordinhas comiam "muitas calorias a menos" do que as magrinhas. "As leis da termodinâmica eram, entretanto, desconsideradas por essa descoberta", ele descreveu, porque as garotas obesas gastavam menos energia do que as magras. Elas eram menos ativas - passavam quatro vezes mais tempo assistindo televisão, por exemplo. Mayer também estudou crianças. "O impressionante fenômeno é que bebês mais gordos são quietos, tranqüilos, com consumo moderado de alimentos. Enquanto isso, os bebês que mais comem tendem a ser magros, choram muito, são agitados e se tornam muito nervosos", escreveu o nutricionista. Dessa forma, Mayer concluiu que "alguns indivíduos que nascem quietos e tranqüilos ficam gordos com um consumo moderado de comida. Já outros indivíduos são muito ativos e não ficam gordos, mesmo com um consumo elevado".

Mayer foi o pioneiro na prática, agora popular, de apontar o sedentarismo como o "fator mais importante" para a obesidade e as doenças crônicas que a acompanham. Para ele, os americanos modernos são inertes se comparados a seus "antepassados pioneiros, constantemente engajados em trabalho físico pesado". Toda conveniência moderna, de janelas com controle remoto a escovas de dente elétricas, apenas serve para minimizar as calorias que gastamos. "O desenvolvimento da obesidade", Mayer escreveu em 1968, "é conseqüência da falta de planejamento de uma civilização que gasta dezenas de bilhões na compra de carros, mas não está disposta a incluir piscinas e quadras de tênis nos planos de todas as escolas." As hipóteses de Mayer sempre tiveram defeitos, algo sempre ignorado. Afinal, quem questiona a idéia de que a atividade física é uma panacéia?

A conclusão "quanto mais gordos somos, mais sedentários parecemos ficar" é, na verdade, uma correlação. "É uma observação comum", notou Hugo Rony em 1941, "que muitos obesos são preguiçosos. Isso pode ser, em parte, um efeito que o excesso de peso teria no impulso para a atividade de qualquer pessoa normal." Há também a possibilidade de que a obesidade e a inatividade física sejam sintomas da mesma causa.

Esse problema lógico foi obscurescido pelo ataque de Mayer à função da fome. Mayer admitiu que exercícios poderiam nos deixar com mais fome, mas considerou que esse não era necessariamente o caso. Aí está o ponto central da mensagem de Mayer, a relação entre apetite e exercício físico. "Andar meia hora por dia pode queimar o equivalente a quatro fatias de pão. Mas, se você não anda essa meia hora, você continua com a vontade de comer as mesmas quatro fatias", escreveu o nutricionista.

Mayer baseou sua conclusão em dois (apenas dois) de seus estudos dos anos 1950. O primeiro demonstrou que ratos de laboratório que se exercitavam por poucas horas, todos os dias, comeriam menos que ratos que não faziam atividade alguma. Mas isso talvez nunca fosse contestado. Em experimentos mais recentes, quanto mais os ratos correm, mais eles comem e o peso permanece o mesmo. E, quando os animais são "aposentados", comem mais e engordam mais rapidamente do que aqueles que sempre foram sedentários.

O segundo estudo de Mayer avaliou a dieta, a atividade física e o peso de trabalhadores e comerciantes de um moinho em Bengal, na Índia. Esse artigo continua a ser elogiado, por exemplo, pelo Instituto Americano de Medicina, como uma das únicas evidências de que atividade física e apetite não andam necessariamente de mãos dadas. Mas esse também nunca foi contestado, apesar do meio século de progressos nos métodos de avaliação nutricional e gasto de energia em humanos.

O estudo ajudou Mayer a promover sua mensagem pró-exercício com o fervor de uma cruzada moral. Em 1966, ele foi o autor de um relatório do Serviço Americano de Saúde Pública em prol do aumento de atividade física, aliado a uma dieta balanceada, como a melhor forma de perder peso. Em 1969, Mayer comandou a Conferência da Casa Branca sobre Comida, Nutrição e Saúde. "O tratamento da obesidade deve envolver mudanças drásticas no estilo de vida, com alterações nos padrões de dieta e de atividade física", diz o relatório final da conferência. Em 1972, Mayer começou a escrever uma coluna sobre nutrição em um jornal. Certa vez, soando suspeitamente como um médico frente a um de seus pacientes, afirmou que o exercício físico faria "o peso derreter mais rapidamente".

O culto aos exercícios físicos começou no final dos anos 1960, coincidindo com a cruzada de Mayer. Em 1977, o "The New York Times" cobriu o "boom dos exercícios vigorosos, algo bom para você". Em 1980, o "Washington Post" estimou que 100 milhões de americanos estavam participando da "revolução do fitness", data que coincide com o início da epidemia de obesidade. O jornal também notou que a maioria dos praticantes "havia sido taxada de 'loucos por saúde', uma década antes".

Nesse meio tempo, a comprovação que daria suporte às hipóteses de Mayer nunca surgiu. Meu estudo preferido sobre o efeito da atividade física em prol do emagrecimento foi publicado em 1989 por um time de pesquisadores dinamarqueses. Durante 18 meses, eles encararam o treinamento completo para uma maratona. Ao final, os 18 voluntários homens do estudo tinham perdido uma média de 2,27 quilos. Enquanto isso, as mulheres não registraram "mudanças na composição corporal".

Isso não explica por que compramos a idéia de Mayer de que mais exercício não implica em um maior consumo de comida. Na verdade, repórteres especialistas em saúde compraram a idéia. E todos estávamos lendo suas reportagens, e não as pesquisas. Em 1977, por exemplo, o Instituto Nacional de Saúde sediou sua segunda conferência sobre obesidade e controle de peso. "A importância de exercícios no controle de peso é menor do que se acredita", concluíram os especialistas participantes, "porque o aumento no gasto de energia, devido ao exercício, também tende a aumentar o consumo de comida." No mesmo ano, a revista do "The New York Times" reportou que havia "agora comprovação de que exercícios regulares resultavam em perda de peso permanente". Em 1990, a revista "Newsweek" declarava o exercício como elemento "essencial" de qualquer programa para emagrecimento, e o "The New York Times" afirmou que naquelas raras ocasiões "em que exercícios não são suficientes", para perder peso, "você também deve ter certeza de não comer demais".

Essa filosofia baseada na fé dominou as discussões científicas sobre peso e exercícios. Daí em diante, a idéia de trabalhar o apetite foi descartada. Clínicos, pesquisadores, fisiologistas e até personal trainers passaram a falar sobre fome como um fenômeno exclusivo do cérebro, e não um processo de reabastecimento de energia corporal.

No final das contas, a relação entre atividade física e gordura chega à questão da causa e efeito. O ciclista norte-americano Lance Armstrong, sete vezes campeão da Volta da França, é magro porque queima milhares de calorias durante um dia pedalando? Ou ele é levado a gastar essa energia porque seu corpo é adaptado contra o armazenamento de calorias como gordura? Se seu tecido adiposo é resistente ao acúmulo de calorias, o corpo dele tem pouca escolha senão queimá-las o mais rápido possível, o que Rony e seus contemporâneos chamaram de "impulso de atividade" - algo fisiológico, não uma iniciativa consciente. Seu corpo lhe diz para subir na bicicleta e pedalar, não sua mente.

Nos últimos 60 anos, pesquisadores que estudaram obesidade e controle de peso têm insistido em tratar o corpo humano como uma "caixa preta" termodinâmica. As calorias entram de um lado e saem de outro. A diferença (calorias que entram menos as que saem) geram mais ou menos gordura. O tecido adiposo, nesse modelo termodinâmico, não tem nada a ver com o problema. Apesar disso, as recomendações oficiais indicam menos comida e mais exercícios para emagrecer (ou, ao menos, não engordar). E isso é verdade. Se você privar um humano ou um rato de comida, ele irá emagrecer. Mas esse não é o ponto. Humanos, ratos e, todos os organismos vivos são guiados pela biologia, não pela termodinâmica. Quando somos privados de comida ficamos com fome. Quando nos esforçamos fisicamente, ficamos cansados.

Nosso corpo desenvolveu uma rede completa de retroalimentação. A grande condição para a vida, segundo o fisiologista francês Claude Bernard notou há 140 anos, é manter o ambiente interno de um organismo estável, independentemente do que está acontecendo do lado de fora. Isso é o que o fisiologista Walter Cannon, da Universidade de Harvard, chamou de homeostase, ou "sabedoria do corpo", nos anos 1930. "De alguma maneira, a matéria não estável da qual somos compostos aprendeu o truque de manter a estabilidade", escreveu Cannon.

Entre as muitas coisas reguladas por esse sistema homeostático - como a pressão sanguínea, a glicose, a temperatura, a respiração etc. -, está a quantidade de gordura que carregamos. Dessa perspectiva biológica, pessoas magras não são aquelas com a força de vontade para fazer mais exercício e comer menos. Seus corpos estão programados para mandar as calorias que consomem para os músculos, onde serão queimadas em vez de serem estocadas no tecido adiposo. O resto de nós tende a ir para o outro lado, desviando as calorias e acumulando-as até o excesso. O desvio de calorias em direção a células gordurosas para serem estocadas é um fenômeno conhecido como quebra de combustível.

O trabalho de determinar quais combustíveis (glicose ou ácidos gordurosos) serão usados no processo - e se os estocaremos como gordura ou os queimaremos como fonte de energia - é conduzido pela insulina e pela enzima lipoproteína lípase (LPL). Vale notar que hormônios sexuais também interagem com a LPL e é por isso que homens e mulheres engordam de maneiras diferentes.

Nos anos 1980, bioquímicos e fisiologistas descobriram que, durante a atividade física, o trabalho da LPL aumenta no tecido muscular, e assim nossas células musculares sugam ácidos gordurosos para usar como combustível. Quando acabamos de nos exercitar, o trabalho da LPL aumenta no tecido adiposo, puxando calorias para as células gordurosas. Assim, toda gordura não queimada volta para elas. Quanto mais rigoroso o exercício, maior a perda de nosso tecido adiposo e maior o aumento da atividade da LPL nas células gordurosas. Bingo: por isso ficamos com fome depois de nos exercitarmos. Nosso tecido adiposo reabastece calorias com gordura, privando órgãos do combustível de que precisam e iniciando o impulso de comer. A sensação de fome é o jeito de o cérebro dizer que está tentando satisfazer as necessidades do corpo. Assim como transpirar nos deixa com sede, queimar calorias leva à fome.

Esse estudo nunca foi controverso. Apenas foi considerado irrelevante pelas autoridades, que se fingem de sonsas e consideram a obesidade uma combinação de gula, preguiça e predisposição genética. Mas contemplar os meios pelos quais podemos perder peso, sem considerar o controle hormonal do tecido adiposo, é como imaginar o crescimento de crianças sem levar em conta o papel dos hormônios do crescimento.

Mas ainda há motivos para otimismo. Como a insulina é o principal hormônio afetando a atividade da LPL em nossas células, não surpreende que ela seja o principal regulador de nossa gordura. "A gordura [do tecido adiposo] é mobilizada quando a secreção de insulina diminui", afirma relatório de 1974 da Associação Médica Americana para Comida e Nutrição. Antes disso, a insulina também era considerada irrelevante para a questão do ganho de peso e os meios para perdê-lo. Como a insulina determina o acúmulo de gordura, é possível que fiquemos gordos não porque comemos muito e fazemos pouco exercício, e sim porque secretamos muita insulina. Ou, ainda, porque nossos níveis de insulina permanecem elevados por mais tempo do que o ideal.

Essa é a mesma lógica que leva a outras idéias não convencionais. Exemplo: são os carboidratos que estimulam a secreção de insulina. "Carboidratos dirigem a insulina, que dirige a gordura", foi assim que George Cahill Jr., um professor de medicina aposentado de Harvard e especialista em insulina, me explicou a questão recentemente.

Talvez, então, se comermos menos carboidratos poderemos perder uma gordura razoável ou ao menos não ganhar mais, se nos exercitarmos ou não. Isso explicaria a enorme quantidade de testes clínicos demonstrando que quem segue dietas que restringem carboidratos, mas não calorias, invariavelmente perde mais peso do que quem segue uma dieta que restringe calorias, mas não necessariamente carboidratos. Colocado de maneira simples, é bem possível que comidas que nossos pais sempre pensaram ser engordativas - batatas, massas, pães, tortas, doces, refrigerantes, cerveja - realmente são. Então, se evitarmos esses alimentos, poderemos ter um peso próximo àquele que almejamos.

O que dizer a quem insiste em afirmar que os exercícios são a chave para o emagrecimento? A única coisa que devemos lembrar é a importância da mudança de dieta. É muito raro alguém decidir que é hora de perder peso sem chegar à conclusão de que também é preciso comer menos doces, beber menos cerveja, mudar para refrigerante diet e, talvez, cortar carboidratos. Para o resto de nós, essa pode ser a hora de dar uma avaliada científica e biológica em nossos excessos. Vale lembrar que os benefícios dos exercícios incluem a alegria da honestidade. Eu me exercitei hoje, então posso comer tudo que aquece meu coração.
RUIM COM ELES, PIOR SEM ELES
Ainda que não promovam o emagrecimento isoladamente, os exercícios físicos garantem corpo e mente mais saudáveis

"Melhor ser um gordinho ativo do que um magro sedentário." A afirmação do especialista em obesidade Steven Blair, do Instituto Cooper de Dallas, nos Estados Unidos, é a gongada incontestável àqueles que se animaram com a revelação de que os exercícios físicos sozinhos não promovem o emagrecimento.

A verdade é que a história não é tão simples. O que não adianta é fazer atividade física e se empanturrar de guloseimas. "Existem evidências de que a atividade física rigorosa - 60 minutos por dia, cinco vezes por semana, com intensidade de moderada a alta - promove a perda de peso", diz o pesquisador Luis Carlos de Oliveira, do Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul (Celafiscs).

O endocrinologista Márcio Mancini, do Grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital das Clínicas de São Paulo, cita um estudo que analisou um grupo de indivíduos obesos submetidos a um déficit de 700 calorias diárias, sem exercício, e outro grupo submetido à mesma dieta e atividade física. Ao final do experimento, os dois grupos perderam a mesma quantidade de peso. Mas o especialista adverte que, entre emagrecer com ou sem atividade física, a primeira opção é a mais saudável. "A atividade física preserva a massa magra, o que ajuda a diminuir os níveis de triglicérides, glicose, colesterol ruim, aumenta o colesterol bom, previne a osteoporose e doenças cardíacas."

Além dos benefícios citados pelo endocrinologista, a atividade física promove outras melhoras à saúde comprovadas pela ciência. "Há um consenso de que 30 minutos de exercícios, cinco vezes por semana [recomendação das autoridades internacionais para a manutenção da saúde], diminui o risco de doenças crônicas não transmissíveis, como hipertensão e problemas cardíacos em até 51%. Um estudo mostrou que 34% dos cânceres podem ser evitados com um estilo de vida ativo", diz Luis Carlos de Oliveira. O especialista também cita um estudo que mostra que a irrigação do tecido cerebral aumenta com a prática de atividade física. Isso significa que a atividade do cérebro aumenta, melhorando as funções cognitivas e a memória.

Sendo assim, temos duas escolhas: fazer menos exercício, só para manter a saúde, ou fazer mais (e com dieta), para emagrecer. Abandonar a academia, infelizmente, ainda está fora de cogitação. (Fernanda Colavitti)