>>>> Se essa moda pega...
Um fazendeiro búlgaro decidiu trocar a mulher por uma cabra porque a ela não podia ter filhos. A troca aconteceu na Cidade de Plovdiv, na Região Central da Bulgária. Stoil Panayotov trocou sua 3ª mulher, Elena, por uma cabra de 8 anos em um mercado da cidade no mês passado. "Um dia antes, um amigo tinha me dito que ele não tinha sorte com as mulheres e que gostava da minha mulher", disse Panayotov, 54 anos.
segunda-feira, abril 14, 2008
sexta-feira, fevereiro 22, 2008
Tecendo o Fio do Destino

“Destino?
Agulha no palheiro
onde o homem se procura
O tempo inteiro”
Lindolfo Bell
Cada um de nós nasce com um destino, não como um livro previamente escrito em que cada ato nosso está previsto, mas como uma missão a nós confiada. Isto faz com que a vida tenha um sentido e, muitas vezes, sofremos com angústia ou depressão por não percebê-lo claramente. Os fatos de nossas vidas estão aí para que encontremos o Fio do Destino que, junto com o nosso livre arbítrio, tece os acontecimentos tanto no nosso mundo interior quanto na nossa vida nas comunidades em que vivemos.
Este curso tem o objetivo de buscar o fio do destino de cada um, desembaraçá-lo, tecê-lo de forma diferente, mais confortável, mais de acordo com o sentido que queremos dar para nossas vidas. Para isso trabalharemos com fatos de nossas próprias vidas. Este trabalho será feito com palavras e arte, como aquarela, modelagem em argila, tricô, desenho, contos de fadas, vídeos, teatro, etc. Ninguém precisa ser artista para participar, é claro.
Muitas das questões que nos colocamos hoje são percebidas de modo diferente quando as situamos no contexto mais amplo da vida toda. A troca de experiências de vida num grupo é enriquecedora e suaviza os sentimentos ligados a essas experiências.
O curso será coordenado por Marcelo Guerra, Médico Homeopata, Terapeuta Biográfico em formação. Terá a duração de 10 encontros mensais e um novo grupo começará no Rio de Janeiro, a partir de 12 de abril de 2008. O investimento para cada módulo será de R$100,00 (já incluído o material). As vagas são limitadas e as inscrições e mais informações podem ser obtidas pelo telefone (22) 8112-4983 ou pelo e-mail marceloguerra@terapiabiografica.com.br
"Cada um hospeda dentro de si uma águia. Sente-se portador de um projeto infinito. Quer romper os limites apertados de seu arranjo existencial. Há movimentos na política, na educação e no processo de mundialização que pretendem reduzir-nos a simples galinhas, confinadas aos limites do terreiro. Como vamos dar asas à águia, ganhar altura, integrar também a galinha e sermos heróis de nossa própria saga?" (Leonardo Boff).
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quarta-feira, fevereiro 20, 2008
A Experiência de Estar Perdido - Psicologia de Lost

Daniel Wood
Quando fui convidado por Joyce Werres a escrever um artigo para o IJRS, senti-me um pouco desconcertado. Para determinar alguma medida do meu desconcerto – é de rir, mas é verdade, o fato de que nunca sabemos a exata extensão em que estamos perdidos; caso contrário seria muito fácil reencontrar o caminho – tenho de confessar que não pude responder imediatamente ao convite com um “sim”, ou algo mais concreto, como “Sim, e tenho precisamente algo preparado para essa ocasião”.
Não podia dizer plenamente meu “sim”. Tenho alguns artigos escritos por minha conta, há alguns anos que pratico esse exercício de escrita. Mas não pensei de imediato em publicar nada que tivesse escrito antes, lido ou não por outrem. Achei que o tema devia vir por si, algo que contribuísse para o momento que estou vivendo – pois, outra confissão: escrevo bem e com paixão quando o tema se apossa de mim, e considero isso uma coisa bem à moda de quem se interessa por Carl Gustav Jung e a imensa profundidade e extensão de sua obra.
Não é, pois uma questão de dizer que sei precisamente o que se sucede. Existem lampejos: por exemplo, uso de mim o pouco que sei quando estou escrevendo – escrevo com paixão, mas isso não quer dizer que escrevo como se estivesse cavando um poço na Lua enquanto pulo carnaval em Marte a bordo de uma nave que se dirige a Saturno, e o último período não foi escrito metaforicamente.
Esta semana estou muito sob a influência da questão que permeia a obra de Philip K. Dick, e considero algo muito próprio da psicologia complexa esse contínuo ato de perguntar o que é real e o que é ilusório, em conjunção com “o que é que constitui um autêntico humano”. Está viva em minha mente a tradução que acabei de terminar (há apenas dois dias) do texto em que Dick, considerado um dos maiores autores de ficção científica do século XX (parece-me que um dos prêmios que recebeu postumamente foi de “o maior”), em cuja obra se baseou o cinema ao filmar Blade Runner (Caçador de Andróides), O Pagamento, Screamers, Impostor, Total Recall (O Vingador do Futuro), Scanner Darkly. Uma olhada pela Internet e encontrei pelo menos um curta-metragem baseado em histórias desse escritor. Mas, desconfio sinceramente que temas como Matrix e Cidade das Sombras (Dark City), ou mesmo O Show de Truman, foram baseados, em algum grau, no pensamento inovador que Philip tem ao abordar as duas questões que o afligem.
Também é possível pensar de outro modo, reconhecendo, como de costume, que a revolução que o pensamento junguiano representa para a humanidade está muito longe de ser delimitada. Outra série de ficção científica que fez muito sucesso na década de 1990 foi Babylon 5, cujo autor (J. M. Straczynski) interessava-se explicatamente por Jung.
Romances são escritos, falseando a vida de Jung; mas contá-la de modo impreciso e às vezes até desonesto não é privilégio dos escritores – alguns, que se intitulam biógrafos, também o fazem dando tonalidades obscuras a algo cuja multiplicidade, estrutura e funcionamento precisa ser examinado mais detidamente do que pelo simples olhar de uma sociedade de consumo, uma configuração social que está acostumada a devorar as coisas antes mesmo de ser capaz de saber as conseqüências desse desenfreado apetite.
Há alguns anos isso me faz selecionar continuamente, receoso, o que leio. Assim pensando, cheguei em minha casa para encontrar uma série de TV empilhada ao lado de minha televisão. Fizera o aluguel da série Lost, que tanto lugar recebe dos meios televisivos e jornalísticos nos dias de hoje, sendo chamada, ao lado de Ronaldinho, de “fenômeno”.
Ronaldinho é um fenômeno por correr atrás da bola com maestria, embora não seja muito bom quando se trata de trabalhar em equipe. A série “Lost”, contudo, mostra um bando de gente perdida. Um vôo que se perde ao sobrevoar, desviado de sua rota, uma ilha perdida num lugar qualquer. Sem rádio, sem tevê, sem jornal. Os personagens parecem sobreviventes ao acaso, o que pensaríamos numa situação dessas à primeira vista: o vôo não foi fretado, são pessoas que por razões desconhecidas e em aparência não-congruentes foram parar lado a lado nos assentos de um vôo cuja missão era atravessar o oceano, saindo da Austrália, que os americanos chamam de “down under”. Na própria série os autores fazem questão de explicar, em um dos episódios, o motivo de escolherem (além dos custos) a Austrália como ponto de partida daquele vôo com uma anedota: “eles” (os norte-americanos) chamam a Austrália de “down under” porque é “o mais próximo que se pode chegar do inferno sem cair nele”1. Eu já vira esta expressão noutro filme de ficção “estonteante”, esse tipo de ficção que nos faz perder o rumo das coisas de chofre. Foi em “O Cubo Zero”2. Um personagem desapareceu; ao se fazer menção a ele, perguntando onde se encontra, respondem: “down under”, mas o letreiro da legenda em português diz: “Austrália”. Nada faz supor que aquele personagem tinha ido à Austrália. Ele estava morto, embora isso ainda não fosse revelado. Constata-se a partir disso que “down under” também pode significar a outra alusão à morte – pois, como se diz em português, “lá embaixo” também pode significar “debaixo da terra”.
Estar, porém, “lá embaixo”, remete a um lugar que a civilização não está acostumada a pensar. Não em termos de mapa mundi, pois nós estamos “aqui embaixo”, ou pelo menos é que dizemos quando apontamos no mapa nossa localização. O Sul do Brasil em particular, de onde agora escrevo, está “aqui embaixo” no mapa do mundo, no mapa do Brasil, no mapa da América do Sul.
Mas “embaixo” é uma posição que sempre se refere a algo que se supõe “em cima”. Costuma-se supor que a consciência é uma instância superior, está acima do resto do corpo se a consideramos situada na cabeça. E se o mundo estiver espetado num palito invisível, como uma dessas maçãs sendo assada ao fogo, poder-se-ia supor que a parte de baixo é essa em que estamos como na convenção do mapa – eles o fizeram, eles “lá em cima” o fizeram, então, parece natural, eles suporem que o lugar onde estão suas cabeças, não as nossas, seja “em cima”. Mas se a mão que segura o espeto estiver virada para baixo, então o lugar no mapa em que estamos “embaixo” na verdade é “em cima”.
Tudo é uma questão de perspectiva, o modo de perceber a realidade, e Jung sabia perfeitamente bem disso, pois escreveu a respeito e salientou de vários modos essa circunstância. Einstein também falou sobre o assunto, embora em outros termos, e não tendo em vista, num primeiro momento, a perspectiva psíquica do universo. Para Einstein as linhas de campo gravitacionais que cingem o universo e fazem com que ele esteja dependurado em cordões invisíveis não têm relação imediata com a psique. A Teoria da Relatividade, tanto em sua parte geral quanto em sua parte especial, explica a questão da perspectiva de uma maneira diferente da abordagem junguiana, mas fala de coisas muito próximas à psicologia complexa. A Física também discute a realidade – impossível seria se não o fizesse, pois, se os gregos buscavam a physis, não é por acaso que também investigavam psyche como um dos elementos estreitamente relacionados ao elemento primordial do universo. Se a physis está na geração do universo, a psyche, sendo alma, é a “substância” que anima o universo, como é vento sob as asas da borboleta – e aí a noção de psyche por vezes se confunde com a noção de pneuma, como hoje as religiões confundem, eventualmente, alma com espírito.
Não é à toa que Jung e Pauli colaboraram tanto. O conceito de sincronicidade não é uma invenção como, por exemplo, o automóvel a gasolina. É uma descoberta. É a retirada de uma ponta do véu de Ísis, que recobre todas as coisas. Uma parte do véu de Maya que se desfaz, para de novo recobrir a verdade.
Como não é à toa, em Lost, que os personagens se encontram “ao acaso” e mais tarde os acontecimentos, em plano triplo (passado, presente e futuro se superpõem nas cenas) vão oferecendo razões para deixar claro que onde não há razão aparente existe uma trama profunda cujos ramos só deixam perceber gradações em níveis.
A cada nível de profundidade, descobre-se mais e mais complexidade. Em flashbacks que mostram os passageiros do vôo 815 da Oceanic, um ou outro passageiro recebe o primeiro plano; enquanto isso, outros que aparecem no plano de fundo também são sobreviventes do desastre do vôo 815. Equivale a dizer que, de um modo ou de outro, seus “destinos” estavam sempre se cruzando, até esse momento crucial em que são todos reunidos numa ilha “perdida”. Antes estavam só no mesmo mundo, um planeta “perdido”, mas não “no meio” do Universo – os astrônomos da atualidade declaram de maneira praticamente unânime que estamos3 pendurados numa das pontas da Via Láctea. No entanto, desconfio que, se fosse depender do julgamento da política vigente no mundo, a Via Láctea apareceria no hemisfério superior dos mapas estelares.
É verdade. De certo modo, estamos perdidos. Perdidos no mesmo mundo, uma ilha no grande oceano do infinito. Também em relação a nós mesmos: somos consciência mínima, luz de vela, no meio desse luzeiro imenso, que teimamos em interpretar como escuridão, que é a psique.
De tal modo que só pode fazer sucesso estrondoso uma abordagem que evidencia, a todo o momento, como estamos perdidos, como acabamos nos encontrando uns aos outros e é esse ato de reconhecer nossos pontos em comum, nossos pontos de conexão, que dá tanto sentido a nossas amizades, às nossas afinidades, e ilumina os caminhos da vida, apresentando sinais por onde podemos ir tateando com nossas pequenas velas através da penumbra.
De tal maneira que temos a ilusão de que não estamos perdidos, pois nos encontramos. Topamo-nos, é verdade, de modo relativo. São referências. Temo-las entre uns e outros. Somos brasileiros ou não, gaúchos ou não, paranaenses ou não, entendemos essa ou aquela língua, nascemos neste ou naquele dia, nesta ou naquela hora, e tudo isso é absolutamente relativo. Não me parece que questionemos nossa existência, isto é, se escrevo isso, se leio isso, é porque existo. Não parece que sonho a escrita, ou que a escrita me sonha lendo. Mas os leitores que conhecem Memórias, Sonhos e Reflexões hão de se lembrar da visão de Jung de que ele era a visão de um iogue, e que esse iogue, ao parar de meditar, cessaria sua (a de Jung) existência. É o que diz Philip Dick: se Deus nos pensa, existimos. Se Deus parar de nos pensar, deixamos de ser, coisa bastante estranha para o pensamento que se crê “no topo do mundo”, mas um tanto natural para quem sabe que está “embaixo”.
Alguns se atrevem a pensar que, se não pensamos em Deus, ele não existe. Mas isso ou é uma falácia, um exercício inconseqüente de retórica, ou um convite à possessão e, por que não, à loucura também, caso de Nietzsche, segundo consta.
Não é possível matar a Deus sem ter – antes disso – de enfrentar as conseqüências de, pelo menos, perder-se, para, se for possível o reencontro, descobrir que de fato, como disseram os antigos, Deus é imortal e também (embora não apenas) por isso é Deus.
Estar perdido também pode ser sinônimo de estar à beira do inferno, lá embaixo. A loucura tem algo de semelhante a isso, podemos pensar neste instante. Quando Jung faz a metáfora de que é uma consciência mínima, uma vela que deve ser tomada com muito cuidado para permitir iluminar na escuridão, tem essa noção imprecisa que temos – os estudantes da psique – de que os limites entre loucura e sanidade são bastante tênues.
Podemos, aliás, pensar que a loucura não existe. Então, desaparecem os limites. Mas se pensarmos que a loucura é um dos graus da realidade4, também poderemos ter graus de sanidade5 como sendo degraus que ocupamos na escada que visa nos levar ao que em tese almejamos: sermos autenticamente humanos, não estarmos mais perdidos, sermos capazes de localizar com precisão nosso lugar e nossa essência não só no espaço e no tempo, mas em relação ao que sabemos de nós mesmos e dos outros, semelhantes ou não. Mas a loucura existe na medida em que somos capazes de atribuir, mesmo com todo o sentido de que somos capazes, a nós ou a outrem essa coisa nonsense de cavar buracos na Lua enquanto se pula carnaval em Marte no meio de uma viagem a Saturno6. É que, com tudo que podemos compreender também podemos nos recusar, conscientemente ou não, a fazê-lo.
Então atribuir um nome ao outro mantém nosso lugar seguro: “é louco”, “está perdido”, fica “lá embaixo”. Ou seja, “não é comigo”. São eles que estão Lost, eu estou aqui, sentado confortavelmente na frente da televisão, comendo pizza, tomando refrigerante. Do que será feito esse tempero? Cenas dos próximos capítulos. Cenas dos capítulos anteriores.
É também por isso que Lost faz sentido. Não apenas porque descreve metaforicamente a situação do mundo hoje, mas porque sempre se pode pensar que o que está ali não é verdade, enquanto eu, que tenho o controle remoto nas mãos, sou dono da verdade, tenha ou não que trabalhar amanhã, tenha ou não que dar um sentido e uma conclusão minimamente interessantes ao que escrevo, penso e vivo. Eu é que existo, eles não. A menos que eles possam me ver na tevê e me desligar com o controle remoto, mas isso é um absurdo.
No entanto, a mente infantil é capaz de crer nisso. Crer que Deus é dono do controle remoto que pode desligar todas as histórias em todas as televisões, ou que o detentor da suprema realidade é aquele que pode derradeiramente determinar se existimos ou não, e se vivemos os três tempos ou apenas um deles, se seremos fenômeno ou não. Pelo menos achamos que só a mente infantil é capaz disso.
Pode-se pensar que são divagações filosóficas de um diletante, talvez alguém que leu demais ou de menos, e não chegou à conclusão alguma – aliás, difícil chegar a qualquer conclusão simplesmente lendo.
É preciso viver, é preciso escrever no livro da vida, é preciso no livro da vida se inscrever.
Por isso Jung reputava tão vital para o ser e a individuação as rotinas da vida, essa circunstância de ter algo a que se agarrar, essa referência a partir da qual podemos nos determinar como humanos autênticos, que Philip Dick faz questão de citar em seu texto Como Construir Um Universo Que Não Se Despedaça Dois Dias Depois.
Ter uma família, alguém a quem amamos; uma missão na vida; um cachorro, talvez um urso de pelúcia. É outro aspecto de Lost cujos personagens sentem falta, a rotina da vida cotidiana. No entanto, em Roma, fazer como os romanos. É preciso adaptar-se à vida também, criando rotinas. Quanto ao cachorro, Jung cita, quando fala da participation mistique: “você e seu cachorro no escuro”. Ter alguém (ou algo) a quem (ou ao qual) se agarrar mesmo na escuridão – embora possamos pensar que no escuro é muito fácil criar participação mística com o que quer que seja.
Por isso também encontramos projeções: encontramos no mundo os aspectos que nos permitem fazer nele nossas almas, à semelhança do que Hillman disse, que “o mundo é lugar de fazer alma”.
Reconhecemo-nos também no mundo, para que possamos nos reconhecer em nós mesmos: perdidos, para que possamos nos descobrir. A Oração de São Francisco de Assis é neste aspecto uma lição de sabedoria: “Que eu procure mais…” fazer do que ser feito – amar que ser amado, compreender que ser compreendido. Levar a luz às trevas, a esperança ao desespero. Ser capaz de viver a realidade e não a ilusão, e ser capaz de manifestar, na ilusão, a realidade. Coisas tão simples quando escritas e tão incrivelmente difíceis na realidade.
“Pois é morrendo que se vive…”, porque, ao chegar lá embaixo, ou nos limites dessa situação, com freqüência surge uma oportunidade maravilhosa, algo que, dado um mínimo de percepção, nos iça de volta ao limiar da consciência e nos permite retornar à vida. Perdidos, pois precisamos ser encontrados.
Assim é que Lost é um apelo, um chamado de e para o homem moderno. Não é para os que já sabem se sustentar e viver de si mesmos: os personagens são tontos da cidade moderna que mal sabem o que fazer no mato: um médico que não consegue reconhecer nas plantas à sua volta as substâncias de que a medicina depende; um construtor que encontra uma paisagem nua, mas não quer construir nela, quer voltar para a “civilização”, onde tudo já parece estar construído. Não há um padre, não sabem sequer fazer um ritual fúnebre, o que equivale a dizer que não têm respeito suficiente pelos mortos, e isso também que nossa sociedade perdeu a ligação com seu próprio passado.
Há em Lost dois homens que sabem fazer muitas coisas: um era paralítico na sociedade moderna; vivia amarrado a uma cadeira de rodas, enganado pelo próprio pai e pela própria mãe7, trabalhando em uma fábrica de caixas de papel, sonhando em ser um grande explorador, um caçador e um sábio, coisa que se torna ao se encontrar na ilha, um rei, com um olho em terra de cegos. O outro, um iraquiano, ex-torturador na Guarda Republicana do Iraque, aprendeu em seu ofício de guerra a refletir sobre o valor da vida e do amor; parece por vezes ter mais consideração pelo ser humano do que os “civilizados”. É dos árabes que vem de resgate a alquimia, de descoberta a álgebra, de invenção o algarismo entre outros objetos das ciências cuja perspectiva inicial foi perdida de vista pela civilização fragmentária que esqueceu o rumo e caiu, em pleno vôo, rumo a uma ilha onde é obrigatório reconhecer que não é possível viver só. Há uma mulher, coreana, que sabe cultivar plantas, e serve de elo entre o oriente e o ocidente. Seu marido, coreano também, é o único que parece saber alguma coisa sobre a pesca. Ambos representam, relutantemente, ligações entre o homem e a natureza – os ocidentais falam de ecologia, mas sua cultura é aquela que mais se distancia dela.
Tais personagens sugerem que aquilo que em nossa civilização pode dar condições de conhecimento de si mesmo está engessado. A exemplo disso o médico, que é o líder da turma toda, está constantemente envolto em questões que o fazem questionar sua própria capacidade de decidir, tanto quanto a de crer. É que a ciência também está engessando a criatividade humana, na medida em que constrói impedimentos à fé, pois toda criação parte de um ato de fé. Se o ser humano não puder ter o numinoso como elemento fundamental de sua existência, será difícil justificar qualquer de seus inventos.
Isso também faz lembrar o Egito, cuja civilização durou milhares de anos: o númeno era o elemento fundamental, central, da construção da civilização egípcia. Aliás, os grandes monumentos da história representam não o que há de cotidiano e banal no homem, mas o que está muito além da aspiração diária. São representantes das “esferas fixas” em torno das quais gira o universo, segundo Hermes Trismegistus; são também elementos a priori, não funções, mas coisas anteriores mesmo às idéias; são geradores de idéias, ideais; arquétipos, fundamentos da vida.
O apelo de Jung está mais vivo do que nunca. É preciso conferir a todos os atos da vida o fundamento psíquico, para que as coisas sejam aquilo que na verdade são, isto é, representantes do ser e facilitadores do devir.
E pareceu-me, enfim, que estas estão entre as principais razões do sucesso “fenomênico” de Lost: é que por trás do fenômeno está o númeno, e este impulsiona àquele, sem o qual o fenômeno, destituído de alma, torna-se, no máximo, simples “coincidência”. Em Lost a princípio parece não haver númeno entre os sobreviventes do vôo que caiu, mas há a floresta, a ilha, o oceano, os perigos, e todos paulatinamente se revelam interrelacionados, além do presente, com o passado dos sobreviventes e seus destinos. Pois parece ser preciso destacar para o ser humano uma situação que lhe ofereça um deslocamento em relação ao seu cotidiano para que possa perceber, nas entrelinhas, o que também está presente no cotidiano, mas que é tão invisível, porque estamos perceptivamente embotados em relação a nossa vida diária, e esse embotamento é tão endêmico, tão subjacente a esta nossa sociedade, que o “mal do século” – segundo se dizia no início do ano 2000 em relação à depressão – não foi resolvido, nem sequer foi conhecido como elemento necessário à transformação social.
1 Numa de conversa de bar em Sidney, o pai de um dos protagonistas – o médico Jack – conversa com outros dos protagonistas, Sawyer, sobre a bebida e a Austrália, em um flashback da passagem de Sawyer pela Autrália.
2 São três filmes: O Cubo, o Cubo Dois e o Cubo Zero, que cronologicamente se situa antes do “Cubo”, mas foi o último a ser produzido.
3 Muita gente considera obra do acaso o fato de que estamos, uns sete bilhões de habitantes humanos e outros tantos seres vivos, neste mesmo planeta, com tantos lugares no universo para se estar!
4 Assim como é um dos graus da percepção da realidade.
5 Ser são, aliás, não significa que aquilo que percebemos é aquilo que é – longe disso.
6 Aliás, em termos psíquicos isso é possível, ou não teríamos formulado a hipótese. Se pode ser escrito, é porque pode ser imaginado. Muitas coisas podem ocorrer no campo da psique, embora nunca se manifestem, sabem isso pelo menos os junguianos. Daí que a realidade psíquica é tão mais abrangente que a física, porque a última é manifesta, mas a primeira está no campo da criação das coisas.
7 Num dos episódios, já adulto, após anos de vida como órfão, é enganado por sua mãe e pai de modo a doar um dos rins para o pai; em seguida é posto de lado. No entanto, na ilha é o maior portador da fé. Acredita num aspecto transcendental da vida que o reabilitou.
sexta-feira, fevereiro 15, 2008
Agenda de Terapia Biográfica
"Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, acorda”. Carl Gustav Jung
Fevereiro
Continuam as entrevistas prévias para interessados em participar dos grupos de Terapia Biográfica. Marcar pelo e-mail marceloguerra@terapiabiografica.com ou pelo telefone (22)8112-4983.
16 de Fevereiro: início do seminário Tecendo o Fio do Destino, no Centro Educacional Vale Encantado, em Duas Barras (RJ), às 14h. Não há mais vagas! Se tiver interesse, entre em contato para ser avisado do próximo seminário.
21 de Fevereiro: início do grupo 1 de Terapia Biográfica. Horário: quintas-feiras às 18:30h, quinzenalmente. Inscreva-se já!
22 de fevereiro: início do grupo Compartilhando Histórias de Vida, para pessoas da terceira idade. Horário: sextas-feiras às 13:30h, quinzenalmente. Inscreva-se já!
Fevereiro
Continuam as entrevistas prévias para interessados em participar dos grupos de Terapia Biográfica. Marcar pelo e-mail marceloguerra@terapiabiografica.com ou pelo telefone (22)8112-4983.
16 de Fevereiro: início do seminário Tecendo o Fio do Destino, no Centro Educacional Vale Encantado, em Duas Barras (RJ), às 14h. Não há mais vagas! Se tiver interesse, entre em contato para ser avisado do próximo seminário.
21 de Fevereiro: início do grupo 1 de Terapia Biográfica. Horário: quintas-feiras às 18:30h, quinzenalmente. Inscreva-se já!
22 de fevereiro: início do grupo Compartilhando Histórias de Vida, para pessoas da terceira idade. Horário: sextas-feiras às 13:30h, quinzenalmente. Inscreva-se já!
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quinta-feira, fevereiro 14, 2008
Educação em Discussão
>>Esta semana, dois artigos discutem dois mitos sempre presentes quando se fala em educação: o de que o uso de computadores melhora o desempenho escolar e o de que os professores melhoram seu desempenho ganhando melhor. Veja abaixo as duas matérias:

O uso intenso de PCs piora o desempenho escolar
SÃO PAULO - O uso intenso de PCs piora o desempenho escolar, sugerem dados de uma pesquisa da Unicamp.
“O resultado mais importante… surgiu quando os estudantes disseram sempre usar o computador. Entre esses, não importou a classe social ou disciplina, o desempenho foi sempre pior do que entre os que nunca usaram”, disse Jacques Wainer, do Instituto de Computação da Unicamp, à Agência Fapesp (http://www.agencia.fapesp.br), que divulgou o estudo.
Entre os alunos da 8a série, o quadro foi semelhante. Wainer e Tom Dwyer, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, coordenaram a pesquisa.
Os resultados mostraram, por exemplo, que na 4a série os estudantes de classe alta que raramente usaram o computador para as tarefas tiveram, em média, 15 pontos a menos do que os que nunca o fizeram, tanto em português quanto em matemática.
Já entre os alunos mais pobres que usaram computador, mesmo que raramente, houve uma piora mais acentuada nas notas em relação aos estudantes que nunca usaram PCs. Esse grupo apresentou uma diferença média de 25 pontos em português e 15 pontos em matemática.
A pesquisa utilizou dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), exame aplicado em todos os Estados a alunos de 4a e 8a séries do ensino fundamental e da 3a série do ensino médio.
OTIMISMO NO PLANALTO
O governo federal tem promovido esforços para melhorar a inclusão digital e tenta por uma segunda vez realizar uma licitação para compra de 150 mil notebooks educacionais de baixo custo para distribuição entre alunos do ensino fundamental de 300 escolas do país. A primeira tentativa não atendeu às exigências de preço do governo.
O assessor da Presidência da República José Luiz Aquino, que trabalha no projeto Um Computador por Aluno (UCA), afirmou em entrevista por telefone que há diferenças entre o uso de computadores em laboratórios de informática, em que as máquinas são compartilhadas por vários alunos, e o projeto do governo em que os estudantes poderiam levar para casa os equipamentos no futuro.
“Queremos testar nas 300 escolas ainda este ano para sabermos os resultados (no desempenho dos alunos), mas piora eu tenho certeza que não vai acontecer. Nosso modelo é diferente”, disse Aquino, que preferiu não comentar imediatamente os resultados da pesquisa. A Secretaria de Educação à Distância do Ministério da Educação também não quis comentar o estudo, informando que ainda não tivera tempo suficiente para examiná-lo.
Apesar de o trabalho detectar uma relação entre o uso do computador e piora nas notas, os autores não conseguem identificar, sem mais levantamentos, os motivos para o quadro nem porque o efeito da inclusão digital entre alunos mais pobres ser mais grave.
“Nossos resultados devem inspirar profundas interrogações entre todos aqueles que apóiam o uso de computadores no sistema escolar e nos lares e telecentros da nação, em nome da luta contra uma suposta ´desigualdade digital”´, afirma a pesquisa “Desvendendo Mitos: Os Computadores e o Desempenho no Sistema Escolar”, disponível em http://www.scielo.br.
“Como o computador é bom para nós, professores, por exemplo, tendemos a achar que ele é útil para todos. Mas ele não é uma solução mágica para a educação”, disse Wainer à agência.
Reuters

Salário de professor
“A experiência dos estados mais bem-sucedidos mostra que consertar a educação requer muito mais do que jogar dinheiro no sistema”
Claudio de Moura Castro
Segundo afirmativa corrente, os professores da educação básica ganham pouco, por isso a educação é ruim. Como tenho a infeliz sina de acreditar na ciência, para mim isso é assunto de contar e medir. Ganhar pouco ou muito é uma questão relativa (como se viu pelas discussões sobre salários de deputados e juízes). Portanto, só tem sentido a comparação com categorias equivalentes. Com Gustavo Ioschpe, fiz uma revisão de duas pesquisas meticulosas, cotejando o salário dos professores com o de outros grupos profissionais na América Latina. Os resultados colidem com os mitos. Em confronto com pessoas de educação equivalente, os professores não ganham menos. Calculando-se os salários-hora, aumenta a superioridade salarial dos mestres, inclusive dos brasileiros. Ou seja, não se pode dizer que os professores ganham mal, considerando a remuneração de profissionais com igual escolaridade. Há significativas variações, de estado para estado, sendo alguns professores realmente mal pagos. Mas, como a educação é ruim na média, faz sentido comparar salários de professores, também na média. Outro estudo interessante nos é dado por uma pesquisa recente de Samuel Pessoa, na qual o autor confronta os salários do sistema privado com os do sistema público. Em contraste com as conversas de botequim, em média os salários do setor privado são ligeiramente inferiores, apesar da ampla superioridade no desempenho dos seus alunos. Mais um abalo sísmico nos castelos da imaginação. Outra maneira de ver o assunto é perguntar se a salários maiores corresponde um ensino de qualidade superior. Filosofar não resolve. Faz mais sentido calcular os coeficientes de correlação. No caso, esses números medem a probabilidade de que salários mais altos dos professores ocorram nos sistemas estaduais com melhor educação – medida por um índice de desenvolvimento da educação básica (Ideb) mais elevado. Foram tomadas várias definições de salário: do ensino médio, do fundamental, salário-hora, com e sem gratificação e, também, o orçamento estadual para a educação (per capita). Os resultados são sempre os mesmos, quaisquer que sejam as definições. Não há nenhuma associação entre salário alto e educação boa. Os estados com desempenho superior no ensino tanto podem pagar bem como mal. Por exemplo, Alagoas e Amazonas pagam muito e têm desempenho fraco. Minas e Santa Catarina pagam pouco e estão no topo da lista do Ideb. Só há uma conclusão possível da análise de tais números: a má qualidade do nosso ensino não pode ser explicada pelos salários dos professores. Não se trata de metafísica nem de imponderáveis. Quem discordar dessa afirmativa que trate de demonstrar que os números estão errados. Mas, remexendo outros números, podemos encontrar algumas pistas intrigantes. Pesquisa recente indicou que 80% dos professores da rede pública estavam insatisfeitos e com sua auto-estima chamuscada. Já em uma pesquisa com escolas privadas de todo o Brasil, verifiquei que 80% dos professores estavam satisfeitos. Ou seja, com níveis salariais parecidos, as escolas privadas – não apenas as de elite – atraem melhores professores e os mantêm contentes. Não há dados confiáveis, mas parece que os professores estão também contentes nas públicas bem lideradas.
Se essas idéias fazem sentido, os sistemas públicos ganhariam em qualidade se conseguissem criar um ambiente mais positivo e estimulante para os seus professores. Como a escola tem a cara do diretor, a sua escolha irresponsável arruína o ensino. Onde isso ocorre, os professores se sentem desvalorizados e manipulados pela burocracia. Os mais graves pepinos estão no clientelismo do governo local. A politicagem passa na frente das preocupações com a qualidade. A carreira do magistério é leniente com malandros e incompetentes. É a “incompetência ignorada, a competência não reconhecida”. No fim das contas, a experiência dos estados mais bem-sucedidos mostra que consertar a educação requer muito mais do que jogar dinheiro no sistema.
O uso intenso de PCs piora o desempenho escolar
SÃO PAULO - O uso intenso de PCs piora o desempenho escolar, sugerem dados de uma pesquisa da Unicamp.
“O resultado mais importante… surgiu quando os estudantes disseram sempre usar o computador. Entre esses, não importou a classe social ou disciplina, o desempenho foi sempre pior do que entre os que nunca usaram”, disse Jacques Wainer, do Instituto de Computação da Unicamp, à Agência Fapesp (http://www.agencia.fapesp.br), que divulgou o estudo.
Entre os alunos da 8a série, o quadro foi semelhante. Wainer e Tom Dwyer, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, coordenaram a pesquisa.
Os resultados mostraram, por exemplo, que na 4a série os estudantes de classe alta que raramente usaram o computador para as tarefas tiveram, em média, 15 pontos a menos do que os que nunca o fizeram, tanto em português quanto em matemática.
Já entre os alunos mais pobres que usaram computador, mesmo que raramente, houve uma piora mais acentuada nas notas em relação aos estudantes que nunca usaram PCs. Esse grupo apresentou uma diferença média de 25 pontos em português e 15 pontos em matemática.
A pesquisa utilizou dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), exame aplicado em todos os Estados a alunos de 4a e 8a séries do ensino fundamental e da 3a série do ensino médio.
OTIMISMO NO PLANALTO
O governo federal tem promovido esforços para melhorar a inclusão digital e tenta por uma segunda vez realizar uma licitação para compra de 150 mil notebooks educacionais de baixo custo para distribuição entre alunos do ensino fundamental de 300 escolas do país. A primeira tentativa não atendeu às exigências de preço do governo.
O assessor da Presidência da República José Luiz Aquino, que trabalha no projeto Um Computador por Aluno (UCA), afirmou em entrevista por telefone que há diferenças entre o uso de computadores em laboratórios de informática, em que as máquinas são compartilhadas por vários alunos, e o projeto do governo em que os estudantes poderiam levar para casa os equipamentos no futuro.
“Queremos testar nas 300 escolas ainda este ano para sabermos os resultados (no desempenho dos alunos), mas piora eu tenho certeza que não vai acontecer. Nosso modelo é diferente”, disse Aquino, que preferiu não comentar imediatamente os resultados da pesquisa. A Secretaria de Educação à Distância do Ministério da Educação também não quis comentar o estudo, informando que ainda não tivera tempo suficiente para examiná-lo.
Apesar de o trabalho detectar uma relação entre o uso do computador e piora nas notas, os autores não conseguem identificar, sem mais levantamentos, os motivos para o quadro nem porque o efeito da inclusão digital entre alunos mais pobres ser mais grave.
“Nossos resultados devem inspirar profundas interrogações entre todos aqueles que apóiam o uso de computadores no sistema escolar e nos lares e telecentros da nação, em nome da luta contra uma suposta ´desigualdade digital”´, afirma a pesquisa “Desvendendo Mitos: Os Computadores e o Desempenho no Sistema Escolar”, disponível em http://www.scielo.br.
“Como o computador é bom para nós, professores, por exemplo, tendemos a achar que ele é útil para todos. Mas ele não é uma solução mágica para a educação”, disse Wainer à agência.
Reuters

Salário de professor
“A experiência dos estados mais bem-sucedidos mostra que consertar a educação requer muito mais do que jogar dinheiro no sistema”
Claudio de Moura Castro
Segundo afirmativa corrente, os professores da educação básica ganham pouco, por isso a educação é ruim. Como tenho a infeliz sina de acreditar na ciência, para mim isso é assunto de contar e medir. Ganhar pouco ou muito é uma questão relativa (como se viu pelas discussões sobre salários de deputados e juízes). Portanto, só tem sentido a comparação com categorias equivalentes. Com Gustavo Ioschpe, fiz uma revisão de duas pesquisas meticulosas, cotejando o salário dos professores com o de outros grupos profissionais na América Latina. Os resultados colidem com os mitos. Em confronto com pessoas de educação equivalente, os professores não ganham menos. Calculando-se os salários-hora, aumenta a superioridade salarial dos mestres, inclusive dos brasileiros. Ou seja, não se pode dizer que os professores ganham mal, considerando a remuneração de profissionais com igual escolaridade. Há significativas variações, de estado para estado, sendo alguns professores realmente mal pagos. Mas, como a educação é ruim na média, faz sentido comparar salários de professores, também na média. Outro estudo interessante nos é dado por uma pesquisa recente de Samuel Pessoa, na qual o autor confronta os salários do sistema privado com os do sistema público. Em contraste com as conversas de botequim, em média os salários do setor privado são ligeiramente inferiores, apesar da ampla superioridade no desempenho dos seus alunos. Mais um abalo sísmico nos castelos da imaginação. Outra maneira de ver o assunto é perguntar se a salários maiores corresponde um ensino de qualidade superior. Filosofar não resolve. Faz mais sentido calcular os coeficientes de correlação. No caso, esses números medem a probabilidade de que salários mais altos dos professores ocorram nos sistemas estaduais com melhor educação – medida por um índice de desenvolvimento da educação básica (Ideb) mais elevado. Foram tomadas várias definições de salário: do ensino médio, do fundamental, salário-hora, com e sem gratificação e, também, o orçamento estadual para a educação (per capita). Os resultados são sempre os mesmos, quaisquer que sejam as definições. Não há nenhuma associação entre salário alto e educação boa. Os estados com desempenho superior no ensino tanto podem pagar bem como mal. Por exemplo, Alagoas e Amazonas pagam muito e têm desempenho fraco. Minas e Santa Catarina pagam pouco e estão no topo da lista do Ideb. Só há uma conclusão possível da análise de tais números: a má qualidade do nosso ensino não pode ser explicada pelos salários dos professores. Não se trata de metafísica nem de imponderáveis. Quem discordar dessa afirmativa que trate de demonstrar que os números estão errados. Mas, remexendo outros números, podemos encontrar algumas pistas intrigantes. Pesquisa recente indicou que 80% dos professores da rede pública estavam insatisfeitos e com sua auto-estima chamuscada. Já em uma pesquisa com escolas privadas de todo o Brasil, verifiquei que 80% dos professores estavam satisfeitos. Ou seja, com níveis salariais parecidos, as escolas privadas – não apenas as de elite – atraem melhores professores e os mantêm contentes. Não há dados confiáveis, mas parece que os professores estão também contentes nas públicas bem lideradas.
Se essas idéias fazem sentido, os sistemas públicos ganhariam em qualidade se conseguissem criar um ambiente mais positivo e estimulante para os seus professores. Como a escola tem a cara do diretor, a sua escolha irresponsável arruína o ensino. Onde isso ocorre, os professores se sentem desvalorizados e manipulados pela burocracia. Os mais graves pepinos estão no clientelismo do governo local. A politicagem passa na frente das preocupações com a qualidade. A carreira do magistério é leniente com malandros e incompetentes. É a “incompetência ignorada, a competência não reconhecida”. No fim das contas, a experiência dos estados mais bem-sucedidos mostra que consertar a educação requer muito mais do que jogar dinheiro no sistema.
quinta-feira, janeiro 10, 2008
Tem louco pra tudo mesmo...

Campeão da Copa América em sua estréia como treinador, Dunga tem mais motivos a comemorar pelo ano de 2007: o técnico da seleção brasileira foi eleito o melhor do ano pela Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol (IFFHS).
A organização somou os votos de representantes de 93 países. Dunga ficou em primeiro na frente de Slaven Bilic, da Croácia. O terceiro colocado também é brasileiro: Jorvan Vieira, que levou o Iraque ao histórico título da Copa da Ásia.
Luiz Felipe Scolari, treinador de Portugal, ficou com a décima colocação, empatado com Alfio Basile, da Argentina. O outro brasileiro da lista é Hélio dos Anjos, em 24º, após ter sido vice-campeão asiático com a Arábia Saudita.
Pela primeira vez, uma mulher entra na relação. Trata-se de Silvia Neid, que levou a Alemanha ao título mundial na final contra o Brasil.
O vencedor da eleição de 2006 foi Marcello Lippi, que havia sido campeão da Copa pela Itália. O melhor colocado foi Scolari, em quarto.
quarta-feira, dezembro 19, 2007
Quer ficar rico? Abra um cartório no RJ!

Reajustes podem passar de mil por cento, mas usuário não pagará mais por alguns itens
O Projeto de Lei 1.099/07 está tramitando na Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) com a proposta de modificar e reajustar as taxas cobradas pelos cartórios. A medida pode afetar, por exemplo, quem se casar de papel passado no estado, pois haverá aumento das despesas de cartório. Caso a proposta seja aprovada pelos deputados estaduais, os casais terão que arcar com um aumento de 208%.
Os mais idosos, que recebem benefícios da Previdência Social, também podem ser afetados com os reajustes. Aqueles que precisarem nomear um representante legal terão uma correção de 485%. Outro exemplo: o procedimento de reconhecimento de firma pode ter uma alta de 971%. Uma autenticação de documento terá uma elevação de 792%.
O projeto de lei que reajusta as taxas de cartórios foi encaminhado à Alerj pelo presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-Rio), Murta Ribeiro. Os reajustes podem passar de mil por cento para certos serviços, como registros de imóveis, porém, segundo a Corregedoria do TJ-Rio, as correções não serão tão altas porque o usuário não pagará mais por alguns serviços que hoje são obrigatórios. Se o projeto for aprovado na Alerj, o aumento das taxas vai pesar ainda mais no bolso de quem comprar um imóvel e registrá-lo em seu nome. Os percentuais de reajuste variam de 102 a 188%. No entanto, o projeto continua assegurando o desconto de 50% no caso de primeira aquisição imobiliária para fins residenciais, desde que o imóvel tenha sido adquirido pelo Sistema Financeiro de Habitação (SFH).
quinta-feira, dezembro 13, 2007
Administração Holística: Empresas salvando o planeta

Isa Magalhães, jornal O Povo (Ceará)
Atualmente, devido à crise ecológica mundial nossa grande pergunta é: comoá nos relacionar com o planeta Terra para preservá-lo? Parar de ameaçar o planeta para garantir a vida e a existência de todos os seres que aqui convivem será o grande desafio dos próximos anos.
Acredito que a única resposta viável é buscarmos uma maneira de vida onde as condições não ameacem os que vivem no presente e os que virão no futuro. Ou seja, centrarmos nossa vida no respeito e na solidariedade para com todos os seres, humanos e não humanos, é a única saída viável. Mas como fazer isso? Como abrir mão de um estilo de vida consumista e predatório que desenvolvemos nos últimos séculos? Esse é o desafio mais difícil para os governos e nações, porquanto, isso só será possível através de uma ampla educação que conscientize profundamente a todos.
Quando colocamos a vida no centro de tudo, tornando-a o foco maior, geramos uma visão biocêntrica onde as questões existenciais tornam-se o ponto central. Daí nasce um novo projeto educacional que reconhece o ser humano em sua multidimensionalidade, (dimensões física, biológica, mental, psicológica, espiritual, cultural e social). Esse processo é o inicio da nossa integração interna com o meio ambiente externo. Somente a conscientização que vem de dentro é possível mudar algo fora.
Para alcançarmos esse desenvolvimento, precisamos da ajuda das empresas, hoje o maior poder no planeta Terra. E esse pensamento exige novas mudanças no perceber e pensar a vida, na gestão das empresas. Aqui entra a visão da Administração Antroposófica, uma palavra que vem do grego e significa "conhecimento do ser humano", uma nova postura que cria as condições necessárias para este momento delicado em que vivemos.
No pensar antropocêntrico, a consciência e a totalidade do que é vivo penetra no modelo administrativo e entende a empresa também como um ser vivo que se manifesta de muitas maneiras. Para que isso aconteça, a proposta é a formação e capacitação das lideranças segundo a metáfora ôde pontes®, ou seja, criar pontes entre as pessoas e os negócios. Pontes da identificação, para os colaboradores se identificarem com a cultura da empresa e sua missão; pontes da Motivação, do Respeito, da Dedicação e da Segurança, onde todos possam dar o seu melhor.
Essa visão leva a Responsabilidade Social interna que se estende além dos muros e toma a sociedade como um todo. Dessa forma, as empresas colaboram com a ecologia se percebendo como a principal agente de construção ou destruição do meio ambiente. áAfinal as empresas são entidades formadas por indivíduos que reproduzem suas ações humanas no mercado em que atuam e na sociedade em geral.
A abordagem da antroposofia no trabalho se diferencia por entender as organizações através de conceitos holísticos práticos, que podem ajudar a empresa a perceber seu verdadeiro papel na sociedade, com plena consciência de que quem faz acontecer as mudanças nas empresas são as pessoas que as compõem.
sexta-feira, dezembro 07, 2007
Trailer do novo filme Speed Racer
Dirigido pelos irmãos Warchowsky, que dirigiram Matrix, estréia prevista em maio de 2008.
Novas regras para TV por assinatura
Vivian Pereira Nunes, O Globo Online
RIO - Quem tiver contratado um serviço de TV por assinatura não precisará mais pagar para usar um ponto-extra (com decodificador) ou uma extensão a partir de junho de 2008, independentemente do tipo de plano ao qual aderiu.
Esta é uma das novas regras previstas pelo Regulamento de Proteção e Defesa dos Direitos dos Assinantes dos Serviços de Televisão por Assinatura, divulgado no final desta quarta-feira pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
As empresas de TV por assinatura terão 180 dias para se adequar às normas e mudar o relacionamento com os usuários dos 28,6 milhões de domicílios brasileiros atendidos pelo serviço.
Como conseqüência da divulgação do novo regulamento da Anatel para o setor, segundo analistas, as ações da NET foram destaque de queda nesta quinta-feira, com perdas de 7,21%, a R$ 24,58. Entretanto, não parece que as empresas prestadoras do serviço vão contestar o novo regulamento, que foi amplamente debatido, em diferentes instâncias, durante três anos.
A própria NET emitiu uma nota, por meio de sua assessoria de imprensa, informando que vai se adequar às novas normas no prazo estipulado. Entretanto, a empresa e outras companhias do setor já batalham contra decisões judiciais em vários estados que as proíbem de cobrar pelo ponto adicional e podem dar margem a indenizações aos consumidores que se sentirem lesados pelas cobranças passadas.
Quem quiser ponto-extra vai pagar só pela ativação do decodificador
O ponto-extra e a extensão não serão cobradas, entretanto, se o consumidor que contratou o serviço de TV por assinatura desejar que a empresa faça a instalação, terá que pagar por isso. Também terá que pagar, uma única vez, pela ativação de um novo decodificador.
O novo regulamento da Anatel garante ainda ao usuário o direito de pedir, sem custos, a suspensão do serviço por períodos entre 30 e 120 dias, uma única vez em um período de 12 meses.
Outros itens de destaque são o que prevê o pagamento, em dobro e em dinheiro, das quantias pagas em decorrência de cobrança indevida feita pela prestadora e o que estipula o abatimento do valor proporcional da assinatura em caso de interrupção do serviço superior a 30 minutos.
O documento estipula também o prazo de cinco dias úteis como limite para a solução de problemas com os assinantes e a existência de uma central de atendimento telefônica com ligação gratuita para o consumidor.
RIO - Quem tiver contratado um serviço de TV por assinatura não precisará mais pagar para usar um ponto-extra (com decodificador) ou uma extensão a partir de junho de 2008, independentemente do tipo de plano ao qual aderiu.
Esta é uma das novas regras previstas pelo Regulamento de Proteção e Defesa dos Direitos dos Assinantes dos Serviços de Televisão por Assinatura, divulgado no final desta quarta-feira pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
As empresas de TV por assinatura terão 180 dias para se adequar às normas e mudar o relacionamento com os usuários dos 28,6 milhões de domicílios brasileiros atendidos pelo serviço.
Como conseqüência da divulgação do novo regulamento da Anatel para o setor, segundo analistas, as ações da NET foram destaque de queda nesta quinta-feira, com perdas de 7,21%, a R$ 24,58. Entretanto, não parece que as empresas prestadoras do serviço vão contestar o novo regulamento, que foi amplamente debatido, em diferentes instâncias, durante três anos.
A própria NET emitiu uma nota, por meio de sua assessoria de imprensa, informando que vai se adequar às novas normas no prazo estipulado. Entretanto, a empresa e outras companhias do setor já batalham contra decisões judiciais em vários estados que as proíbem de cobrar pelo ponto adicional e podem dar margem a indenizações aos consumidores que se sentirem lesados pelas cobranças passadas.
Quem quiser ponto-extra vai pagar só pela ativação do decodificador
O ponto-extra e a extensão não serão cobradas, entretanto, se o consumidor que contratou o serviço de TV por assinatura desejar que a empresa faça a instalação, terá que pagar por isso. Também terá que pagar, uma única vez, pela ativação de um novo decodificador.
O novo regulamento da Anatel garante ainda ao usuário o direito de pedir, sem custos, a suspensão do serviço por períodos entre 30 e 120 dias, uma única vez em um período de 12 meses.
Outros itens de destaque são o que prevê o pagamento, em dobro e em dinheiro, das quantias pagas em decorrência de cobrança indevida feita pela prestadora e o que estipula o abatimento do valor proporcional da assinatura em caso de interrupção do serviço superior a 30 minutos.
O documento estipula também o prazo de cinco dias úteis como limite para a solução de problemas com os assinantes e a existência de uma central de atendimento telefônica com ligação gratuita para o consumidor.
segunda-feira, dezembro 03, 2007
Ginástica emagrece?????

>>> Na verdade, mais importante que emagrecer é ter saúde, e a atividade física é fundamental para isto!
Durante décadas, o culto ao exercício físico tem sido um sinônimo da luta pelo emagrecimento. Mas a ciência nunca conseguiu provar que uma coisa realmente leva à outra
Gary Taubes
Vamos começar com algumas perguntas para pensar durante os 30 (ou 60 ou 90) minutos que você gasta queimando calorias na academia todos os dias ou, talvez, enquanto se sente culpado por não fazer isso. Se os magros são fisicamente mais ativos que os gordos - um fato inquestionável para a ciência às vezes obscura do controle de peso -, isso quer dizer que malhar transformará uma pessoa gorda em uma pessoa magra? E isso quer dizer que ficar sentado no sofá transformará uma pessoa magra em uma pessoa gorda? Que tal uma variação matemática sobre essas questões?
Digamos que freqüentamos a academia e queimamos 3.500 calorias toda semana. Isso são 700 calorias por sessão, cinco vezes por semana. Se meio quilo de gordura equivale a 3.500 calorias, isso quer dizer que ficaremos meio quilo mais magros para cada semana de exercício? E que continuaremos a perder peso nesse ritmo enquanto continuarmos a nos exercitar?
Para a maioria de nós, o medo do excesso de gordura é a razão para nos exercitarmos e a maior motivação que nos leva à academia. É por isso também que as autoridades da área da saúde têm incentivado mais exercícios como parte de uma vida mais saudável. Se estivermos gordos, ou mais gordos do que deveríamos, nos exercitamos. Queimamos calorias. Gastamos energia. Continua gordo? Queime mais. As diretrizes do Departamento de Agricultura dos EUA para uma dieta saudável, por exemplo, recomendam que nos empenhemos em fazer uma hora de atividade física "de moderada a mais vigorosa", apenas para manter o peso, ou seja, que nos impeça de engordar. Considerando a ambigüidade da mensagem e a simplicidade do conceito - queime calorias, perca peso -, não seria bom crer que isso é verdade? A pegadinha é que a ciência sugere que não. Logo, todas as respostas para as questões acima são negativas.
A Associação Americana do Coração e a Faculdade Americana de Esportes e Medicina publicaram um novo guia em setembro. Ele sugere que 30 minutos de atividade física moderada, cinco dias por semana, bastam para "promover e manter a saúde". O guia não afirma que mais exercício leva à perda de peso. Na verdade, o melhor que ele poderia dizer sobre essa relação seria algo como "é razoável acreditar que pessoas com gastos relativamente altos de energia teriam menor propensão ao ganho de peso se comparadas àquelas com um gasto de energia menor".
Em outras palavras, apesar do meio século de esforços para provar o contrário, os cientistas ainda não conseguem dizer que exercícios nos ajudam a manter mais quilos longe de nós. Os 30 minutos recomendados pelo relatório são o ponto de partida de recentes guias de outras organizações - como o Instituto de Medicina das Academias Americanas e a Associação Internacional para Estudos sobre Obesidade.
As bases do tal relatório foram publicadas em 2000 por dois pesquisadores finlandeses que analisaram todas as pesquisas relevantes sobre peso e exercício dos 20 anos anteriores. Ainda assim, o relatório finlandês dificilmente pode ser visto como a solução da questão. Quando os pesquisadores viram os resultados de dúzias dos mais bem construídos experimentos em manutenção de peso - seguidores de dieta que tentavam manter a linha -, eles descobriram que todos voltaram a engordar. E, dependendo do experimento, os exercícios podiam derrubar as taxas desse ganho de peso (-90 g por mês) ou aumentá-las (50 g por mês). Como os próprios finlandeses concluíram, a relação entre exercício e peso é "mais complexa" do que eles imaginaram.
Isso não é dizer que não há excelentes razões para sermos fisicamente ativos (veja quadro "Ruim com eles, pior sem eles"). Podemos apenas curtir exercícios. Podemos melhorar nosso físico como um todo, podemos viver mais - reduzindo nosso risco de sofrer de doenças cardíacas ou diabetes - e provavelmente nos sentiremos melhor com nós mesmos.
Uma coisa que se pode dizer sobre exercícios, com alguma certeza, é que eles tendem a nos deixar com fome. Se queimarmos mais calorias, teremos boas chances de consumir mais calorias.
É difícil conseguir que autoridades da área da saúde dos EUA falem sobre a falta de coerência entre suas recomendações oficiais e as evidências científicas que as fundamentam. Elas querem encorajar uma nação obesa a exercitar-se, mesmo que não existam bases científicas para isso. Vejamos um exemplo. Steve Blair, professor da Universidade da Carolina do Sul e co-autor do guia do Instituto de Medicina das Academias Americanas e da Associação Internacional para Estudos sobre Obesidade, diz que era "baixo, gordo e careca" quando começou a correr aos 30 anos. Agora, aos 68, ele é baixo, mais gordo e mais careca. Ao longo das décadas, ele estima ter corrido quase 129.000 km e ganho mais ou menos 15 quilos.
Quando perguntei a Blair se ele achava que seria mais magro se tivesse corrido ainda mais, ele teve que parar para pensar. "Eu não vejo como eu poderia ter sido mais ativo", disse. "Trinta anos atrás, eu corria 80 km por semana. Mas, se eu pudesse ter me exercitado por duas ou três horas por dia nas últimas duas décadas, talvez não tivesse ganho tanto peso." Mas talvez ele tivesse engordado do mesmo jeito. Se confiarmos no relatório do Instituto de Medicina das Academias Americanas e da Associação Internacional para Estudos sobre Obesidade, que ele co-escreveu, há poucas razões para acreditar que o tanto que ele correu fez alguma diferença. Apesar de tudo, Blair acredita que seria mais gordo se não corresse. Por quê?
Houve um tempo em que ninguém acreditava que exercícios podiam ajudar alguém a perder peso. Até os anos 1960, clínicos que tratavam de pessoas acima do peso e obesas consideravam a idéia ingênua. Quando Russel Wilder - um especialista em obesidade e diabetes - deu uma palestra sobre excesso de peso em 1932, disse que seus pacientes tendiam a emagrecer mais se ficassem em repouso, "já que exercícios muito severos diminuem a taxa de perda de peso".
O problema, como ele e seus contemporâneos constataram, é que exercícios leves queimam um número insignificante de calorias, quantidades que são superadas por pequenas mudanças na dieta. Em 1942, Louis Newburgh, pesquisador da Universidade de Michigan, calculou que um homem de mais ou menos 114 quilos gasta apenas 3 calorias subindo um lance de escadas, o equivalente à privação de um quarto de colher de chá de açúcar ou a 0,28 grama de manteiga. "Ele terá que subir 20 lances de escada para se livrar da energia contida em uma fatia de pão!", observou Newburgh.
Esses médicos depois concluíram que exercícios mais intensos não ajudam porque aumentam o apetite. "Um exercício de musculação vigoroso geralmente resulta em uma demanda imediata de uma boa refeição", notou Hugo Rony, da Universidade de Northwestern (EUA), em seu livro de 1940, "Obesidade e Magreza". "Gastos altos ou baixos resultam em níveis altos ou baixos de apetite. Sendo assim, homens praticando exercício físico pesado comem mais do que outros envolvidos em ocupações sedentárias. Estatísticas mostram que a média de consumo diário de lenhadores supera 5.000 calorias, enquanto que a de alfaiates é de apenas 2.500. Pessoas que mudam suas atividades de leves para pesadas, ou vice-versa, logo desenvolvem mudanças correspondentes em seus apetites." Se um alfaiate virar um lenhador e começar a comer como um, por que não acreditar que o mesmo não irá ocorrer com um alfaiate obeso que decide malhar como um lenhador todos os dias?
Acreditamos no contrário graças ao nutricionista Jean Mayer. Ele começou sua carreira na Universidade de Harvard no início dos anos 1950 e tornou-se o profissional de sua área mais influente dos EUA. Foi presidente da Universidade de Tufts, onde hoje há o Centro Jean Mayer para Pesquisa em Nutrição Humana e Envelhecimento, por 16 anos. Como autoridade em controle de peso humano, estava entre os pioneiros de uma nova geração. Seus predecessores foram todos médicos que trabalharam de perto com obesos e pacientes acima do peso. Mayer, não. Seu treinamento foi em química fisiológica, e ele obteve seu doutorado com uma dissertação sobre a relação das vitaminas A e C em ratos. Nas décadas seguintes, publicou centenas de trabalhos sobre diferentes aspectos da nutrição, incluindo a razão de ficarmos gordos. Mas ele nunca tratou de pacientes obesos em sua rotina.
Já em 1953, depois de alguns anos de pesquisa com ratos em laboratório, Mayer começou a enaltecer as virtudes do exercício para o controle de peso. Em 1959, o jornal "The New York Times" deu crédito a ele por ter "derrubado teorias populares" de que o exercício tinha papel secundário no controle de peso. Mayer sabia que, muitas vezes, obesos comem o mesmo que pessoas magras - ocasionalmente, até menos. Isso parecia excluir a gula como causa do ganho de quilos extras.
Nos anos 1960, Mayer documentou a relação entre a inatividade e o excesso de peso. Ele notou que adolescentes gordinhas comiam "muitas calorias a menos" do que as magrinhas. "As leis da termodinâmica eram, entretanto, desconsideradas por essa descoberta", ele descreveu, porque as garotas obesas gastavam menos energia do que as magras. Elas eram menos ativas - passavam quatro vezes mais tempo assistindo televisão, por exemplo. Mayer também estudou crianças. "O impressionante fenômeno é que bebês mais gordos são quietos, tranqüilos, com consumo moderado de alimentos. Enquanto isso, os bebês que mais comem tendem a ser magros, choram muito, são agitados e se tornam muito nervosos", escreveu o nutricionista. Dessa forma, Mayer concluiu que "alguns indivíduos que nascem quietos e tranqüilos ficam gordos com um consumo moderado de comida. Já outros indivíduos são muito ativos e não ficam gordos, mesmo com um consumo elevado".
Mayer foi o pioneiro na prática, agora popular, de apontar o sedentarismo como o "fator mais importante" para a obesidade e as doenças crônicas que a acompanham. Para ele, os americanos modernos são inertes se comparados a seus "antepassados pioneiros, constantemente engajados em trabalho físico pesado". Toda conveniência moderna, de janelas com controle remoto a escovas de dente elétricas, apenas serve para minimizar as calorias que gastamos. "O desenvolvimento da obesidade", Mayer escreveu em 1968, "é conseqüência da falta de planejamento de uma civilização que gasta dezenas de bilhões na compra de carros, mas não está disposta a incluir piscinas e quadras de tênis nos planos de todas as escolas." As hipóteses de Mayer sempre tiveram defeitos, algo sempre ignorado. Afinal, quem questiona a idéia de que a atividade física é uma panacéia?
A conclusão "quanto mais gordos somos, mais sedentários parecemos ficar" é, na verdade, uma correlação. "É uma observação comum", notou Hugo Rony em 1941, "que muitos obesos são preguiçosos. Isso pode ser, em parte, um efeito que o excesso de peso teria no impulso para a atividade de qualquer pessoa normal." Há também a possibilidade de que a obesidade e a inatividade física sejam sintomas da mesma causa.
Esse problema lógico foi obscurescido pelo ataque de Mayer à função da fome. Mayer admitiu que exercícios poderiam nos deixar com mais fome, mas considerou que esse não era necessariamente o caso. Aí está o ponto central da mensagem de Mayer, a relação entre apetite e exercício físico. "Andar meia hora por dia pode queimar o equivalente a quatro fatias de pão. Mas, se você não anda essa meia hora, você continua com a vontade de comer as mesmas quatro fatias", escreveu o nutricionista.
Mayer baseou sua conclusão em dois (apenas dois) de seus estudos dos anos 1950. O primeiro demonstrou que ratos de laboratório que se exercitavam por poucas horas, todos os dias, comeriam menos que ratos que não faziam atividade alguma. Mas isso talvez nunca fosse contestado. Em experimentos mais recentes, quanto mais os ratos correm, mais eles comem e o peso permanece o mesmo. E, quando os animais são "aposentados", comem mais e engordam mais rapidamente do que aqueles que sempre foram sedentários.
O segundo estudo de Mayer avaliou a dieta, a atividade física e o peso de trabalhadores e comerciantes de um moinho em Bengal, na Índia. Esse artigo continua a ser elogiado, por exemplo, pelo Instituto Americano de Medicina, como uma das únicas evidências de que atividade física e apetite não andam necessariamente de mãos dadas. Mas esse também nunca foi contestado, apesar do meio século de progressos nos métodos de avaliação nutricional e gasto de energia em humanos.
O estudo ajudou Mayer a promover sua mensagem pró-exercício com o fervor de uma cruzada moral. Em 1966, ele foi o autor de um relatório do Serviço Americano de Saúde Pública em prol do aumento de atividade física, aliado a uma dieta balanceada, como a melhor forma de perder peso. Em 1969, Mayer comandou a Conferência da Casa Branca sobre Comida, Nutrição e Saúde. "O tratamento da obesidade deve envolver mudanças drásticas no estilo de vida, com alterações nos padrões de dieta e de atividade física", diz o relatório final da conferência. Em 1972, Mayer começou a escrever uma coluna sobre nutrição em um jornal. Certa vez, soando suspeitamente como um médico frente a um de seus pacientes, afirmou que o exercício físico faria "o peso derreter mais rapidamente".
O culto aos exercícios físicos começou no final dos anos 1960, coincidindo com a cruzada de Mayer. Em 1977, o "The New York Times" cobriu o "boom dos exercícios vigorosos, algo bom para você". Em 1980, o "Washington Post" estimou que 100 milhões de americanos estavam participando da "revolução do fitness", data que coincide com o início da epidemia de obesidade. O jornal também notou que a maioria dos praticantes "havia sido taxada de 'loucos por saúde', uma década antes".
Nesse meio tempo, a comprovação que daria suporte às hipóteses de Mayer nunca surgiu. Meu estudo preferido sobre o efeito da atividade física em prol do emagrecimento foi publicado em 1989 por um time de pesquisadores dinamarqueses. Durante 18 meses, eles encararam o treinamento completo para uma maratona. Ao final, os 18 voluntários homens do estudo tinham perdido uma média de 2,27 quilos. Enquanto isso, as mulheres não registraram "mudanças na composição corporal".
Isso não explica por que compramos a idéia de Mayer de que mais exercício não implica em um maior consumo de comida. Na verdade, repórteres especialistas em saúde compraram a idéia. E todos estávamos lendo suas reportagens, e não as pesquisas. Em 1977, por exemplo, o Instituto Nacional de Saúde sediou sua segunda conferência sobre obesidade e controle de peso. "A importância de exercícios no controle de peso é menor do que se acredita", concluíram os especialistas participantes, "porque o aumento no gasto de energia, devido ao exercício, também tende a aumentar o consumo de comida." No mesmo ano, a revista do "The New York Times" reportou que havia "agora comprovação de que exercícios regulares resultavam em perda de peso permanente". Em 1990, a revista "Newsweek" declarava o exercício como elemento "essencial" de qualquer programa para emagrecimento, e o "The New York Times" afirmou que naquelas raras ocasiões "em que exercícios não são suficientes", para perder peso, "você também deve ter certeza de não comer demais".
Essa filosofia baseada na fé dominou as discussões científicas sobre peso e exercícios. Daí em diante, a idéia de trabalhar o apetite foi descartada. Clínicos, pesquisadores, fisiologistas e até personal trainers passaram a falar sobre fome como um fenômeno exclusivo do cérebro, e não um processo de reabastecimento de energia corporal.
No final das contas, a relação entre atividade física e gordura chega à questão da causa e efeito. O ciclista norte-americano Lance Armstrong, sete vezes campeão da Volta da França, é magro porque queima milhares de calorias durante um dia pedalando? Ou ele é levado a gastar essa energia porque seu corpo é adaptado contra o armazenamento de calorias como gordura? Se seu tecido adiposo é resistente ao acúmulo de calorias, o corpo dele tem pouca escolha senão queimá-las o mais rápido possível, o que Rony e seus contemporâneos chamaram de "impulso de atividade" - algo fisiológico, não uma iniciativa consciente. Seu corpo lhe diz para subir na bicicleta e pedalar, não sua mente.
Nos últimos 60 anos, pesquisadores que estudaram obesidade e controle de peso têm insistido em tratar o corpo humano como uma "caixa preta" termodinâmica. As calorias entram de um lado e saem de outro. A diferença (calorias que entram menos as que saem) geram mais ou menos gordura. O tecido adiposo, nesse modelo termodinâmico, não tem nada a ver com o problema. Apesar disso, as recomendações oficiais indicam menos comida e mais exercícios para emagrecer (ou, ao menos, não engordar). E isso é verdade. Se você privar um humano ou um rato de comida, ele irá emagrecer. Mas esse não é o ponto. Humanos, ratos e, todos os organismos vivos são guiados pela biologia, não pela termodinâmica. Quando somos privados de comida ficamos com fome. Quando nos esforçamos fisicamente, ficamos cansados.
Nosso corpo desenvolveu uma rede completa de retroalimentação. A grande condição para a vida, segundo o fisiologista francês Claude Bernard notou há 140 anos, é manter o ambiente interno de um organismo estável, independentemente do que está acontecendo do lado de fora. Isso é o que o fisiologista Walter Cannon, da Universidade de Harvard, chamou de homeostase, ou "sabedoria do corpo", nos anos 1930. "De alguma maneira, a matéria não estável da qual somos compostos aprendeu o truque de manter a estabilidade", escreveu Cannon.
Entre as muitas coisas reguladas por esse sistema homeostático - como a pressão sanguínea, a glicose, a temperatura, a respiração etc. -, está a quantidade de gordura que carregamos. Dessa perspectiva biológica, pessoas magras não são aquelas com a força de vontade para fazer mais exercício e comer menos. Seus corpos estão programados para mandar as calorias que consomem para os músculos, onde serão queimadas em vez de serem estocadas no tecido adiposo. O resto de nós tende a ir para o outro lado, desviando as calorias e acumulando-as até o excesso. O desvio de calorias em direção a células gordurosas para serem estocadas é um fenômeno conhecido como quebra de combustível.
O trabalho de determinar quais combustíveis (glicose ou ácidos gordurosos) serão usados no processo - e se os estocaremos como gordura ou os queimaremos como fonte de energia - é conduzido pela insulina e pela enzima lipoproteína lípase (LPL). Vale notar que hormônios sexuais também interagem com a LPL e é por isso que homens e mulheres engordam de maneiras diferentes.
Nos anos 1980, bioquímicos e fisiologistas descobriram que, durante a atividade física, o trabalho da LPL aumenta no tecido muscular, e assim nossas células musculares sugam ácidos gordurosos para usar como combustível. Quando acabamos de nos exercitar, o trabalho da LPL aumenta no tecido adiposo, puxando calorias para as células gordurosas. Assim, toda gordura não queimada volta para elas. Quanto mais rigoroso o exercício, maior a perda de nosso tecido adiposo e maior o aumento da atividade da LPL nas células gordurosas. Bingo: por isso ficamos com fome depois de nos exercitarmos. Nosso tecido adiposo reabastece calorias com gordura, privando órgãos do combustível de que precisam e iniciando o impulso de comer. A sensação de fome é o jeito de o cérebro dizer que está tentando satisfazer as necessidades do corpo. Assim como transpirar nos deixa com sede, queimar calorias leva à fome.
Esse estudo nunca foi controverso. Apenas foi considerado irrelevante pelas autoridades, que se fingem de sonsas e consideram a obesidade uma combinação de gula, preguiça e predisposição genética. Mas contemplar os meios pelos quais podemos perder peso, sem considerar o controle hormonal do tecido adiposo, é como imaginar o crescimento de crianças sem levar em conta o papel dos hormônios do crescimento.
Mas ainda há motivos para otimismo. Como a insulina é o principal hormônio afetando a atividade da LPL em nossas células, não surpreende que ela seja o principal regulador de nossa gordura. "A gordura [do tecido adiposo] é mobilizada quando a secreção de insulina diminui", afirma relatório de 1974 da Associação Médica Americana para Comida e Nutrição. Antes disso, a insulina também era considerada irrelevante para a questão do ganho de peso e os meios para perdê-lo. Como a insulina determina o acúmulo de gordura, é possível que fiquemos gordos não porque comemos muito e fazemos pouco exercício, e sim porque secretamos muita insulina. Ou, ainda, porque nossos níveis de insulina permanecem elevados por mais tempo do que o ideal.
Essa é a mesma lógica que leva a outras idéias não convencionais. Exemplo: são os carboidratos que estimulam a secreção de insulina. "Carboidratos dirigem a insulina, que dirige a gordura", foi assim que George Cahill Jr., um professor de medicina aposentado de Harvard e especialista em insulina, me explicou a questão recentemente.
Talvez, então, se comermos menos carboidratos poderemos perder uma gordura razoável ou ao menos não ganhar mais, se nos exercitarmos ou não. Isso explicaria a enorme quantidade de testes clínicos demonstrando que quem segue dietas que restringem carboidratos, mas não calorias, invariavelmente perde mais peso do que quem segue uma dieta que restringe calorias, mas não necessariamente carboidratos. Colocado de maneira simples, é bem possível que comidas que nossos pais sempre pensaram ser engordativas - batatas, massas, pães, tortas, doces, refrigerantes, cerveja - realmente são. Então, se evitarmos esses alimentos, poderemos ter um peso próximo àquele que almejamos.
O que dizer a quem insiste em afirmar que os exercícios são a chave para o emagrecimento? A única coisa que devemos lembrar é a importância da mudança de dieta. É muito raro alguém decidir que é hora de perder peso sem chegar à conclusão de que também é preciso comer menos doces, beber menos cerveja, mudar para refrigerante diet e, talvez, cortar carboidratos. Para o resto de nós, essa pode ser a hora de dar uma avaliada científica e biológica em nossos excessos. Vale lembrar que os benefícios dos exercícios incluem a alegria da honestidade. Eu me exercitei hoje, então posso comer tudo que aquece meu coração.
RUIM COM ELES, PIOR SEM ELES
Ainda que não promovam o emagrecimento isoladamente, os exercícios físicos garantem corpo e mente mais saudáveis
"Melhor ser um gordinho ativo do que um magro sedentário." A afirmação do especialista em obesidade Steven Blair, do Instituto Cooper de Dallas, nos Estados Unidos, é a gongada incontestável àqueles que se animaram com a revelação de que os exercícios físicos sozinhos não promovem o emagrecimento.
A verdade é que a história não é tão simples. O que não adianta é fazer atividade física e se empanturrar de guloseimas. "Existem evidências de que a atividade física rigorosa - 60 minutos por dia, cinco vezes por semana, com intensidade de moderada a alta - promove a perda de peso", diz o pesquisador Luis Carlos de Oliveira, do Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul (Celafiscs).
O endocrinologista Márcio Mancini, do Grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital das Clínicas de São Paulo, cita um estudo que analisou um grupo de indivíduos obesos submetidos a um déficit de 700 calorias diárias, sem exercício, e outro grupo submetido à mesma dieta e atividade física. Ao final do experimento, os dois grupos perderam a mesma quantidade de peso. Mas o especialista adverte que, entre emagrecer com ou sem atividade física, a primeira opção é a mais saudável. "A atividade física preserva a massa magra, o que ajuda a diminuir os níveis de triglicérides, glicose, colesterol ruim, aumenta o colesterol bom, previne a osteoporose e doenças cardíacas."
Além dos benefícios citados pelo endocrinologista, a atividade física promove outras melhoras à saúde comprovadas pela ciência. "Há um consenso de que 30 minutos de exercícios, cinco vezes por semana [recomendação das autoridades internacionais para a manutenção da saúde], diminui o risco de doenças crônicas não transmissíveis, como hipertensão e problemas cardíacos em até 51%. Um estudo mostrou que 34% dos cânceres podem ser evitados com um estilo de vida ativo", diz Luis Carlos de Oliveira. O especialista também cita um estudo que mostra que a irrigação do tecido cerebral aumenta com a prática de atividade física. Isso significa que a atividade do cérebro aumenta, melhorando as funções cognitivas e a memória.
Sendo assim, temos duas escolhas: fazer menos exercício, só para manter a saúde, ou fazer mais (e com dieta), para emagrecer. Abandonar a academia, infelizmente, ainda está fora de cogitação. (Fernanda Colavitti)
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quinta-feira, novembro 22, 2007
200 orgasmos por dia!!!!!!

O barulho do trem, o som do secador de cabelo, o movimento ritmado de uma fotocopiadora. Elementos comuns da vida moderna, não é mesmo? Eles podem até provocar estresse. Não para a britânica Sarah Carmen, de 24 anos. Tudo isso faz com que a mulher obtenha, em um dia normal, cerca de 200 orgasmos, segundo informação do jornal "News of the World". Eu disse 200! Duzentos! A cada sete minutos, a moça tem um orgasmo!
Calma, Sarah não é uma ninfomaníaca. Ela sofre de uma doença bastante incomum chamada de Síndrome de Excitação Sexual Persistente (PSAS, na sigla em inglês), que a deixa bastante excitada por longos períodos mesmo sem ter qualquer estímulo. A síndrome leva ao aumento do fluxo sanguíneo para os órgãos sexuais.
"Quando tudo começou, aos 19 anos, meu namorado estranhou a quantidade de orgasmo que eu atingia durante o ato sexual", contou a esteticista britânica, que trabalha em um salão de Londres. "Em 6 meses eu consegui 150 orgasmos por dia, e as vezes até chegava 200", completou.
Sarah conta que o seu apetite sexual afasta os homens, que, segundo ela, não agüentam o ritmo e, em alguns casos, sentem-se frustrados por não fazer quase esforço para que a mulher chegue ao clímax.
Durante a entrevista de 40 minutos dada ao repórter Matthew Acton, a britânica "chegou lá" cinco vezes. As circunstâncias não foram esclarecidas...
Rio ganhará sete escolas técnicas federais até 2010

RIO - O governo federal vai construir sete escolas técnicas no estado do Rio de Janeiro até 2010. O Plano de Expansão da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica está construindo as unidades de ensino nas cidades-pólo de Angra dos Reis, Cabo Frio, Itaperuna, Volta Redonda, Petrópolis, Duque de Caxias e Nova Friburgo. O estado já tem 12 instituições tecnológicas.
Serão aproveitados os arranjos produtivos locais de cada região - turismo (Angra dos Reis); confecções e turismo (Cabo Frio); confecções (Itaperuna); metal-mecânico, eletroeletrônica e confecções (Volta Redonda); confecções e móveis (Petrópolis); polímeros (Duque de Caxias); confecções, floricultura e turismo (Nova Friburgo).
A expansão da rede de educação profissional está prevista no Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), lançado em abril pelo Ministério da Educação. A proposta determina a construção de 150 escolas técnicas em todo o país. Os municípios que receberão as instituições foram definidos para atender localidades no interior do Brasil e periferias dos grandes centros urbanos. Foram considerados os arranjos produtivos locais, de forma a reduzir a saída dos alunos em direção às grandes cidades e aproveitar a infra-estrutura da região.
Para apresentar o PDE no Rio de Janeiro e garantir a participação do estado e dos seus 92 municípios, o ministro Fernando Haddad visita a capital fluminense nesta quinta-feira.
Interiorização das Universidades Federais

O Ministério da Educação (MEC) prometeu nesta quarta-feira (21) cinco novos campi vinculados às universidades federais do Rio de Janeiro. Segundo dados da assessoria de imprensa do MEC, serão investidos R$ 42,5 milhões nos campi da Universidade Federal Fluminense (UFF buscar) e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ buscar), com oferta de 10.180 vagas.
O projeto prevê um campus em Volta Redonda, vinculado à UFF e com 2.560 vagas nos cursos de administração de empresas; engenharias de produção, mecânica, metalúrgica, agronegócio; gestão pública e ciências contábeis. A unidade terá o objetivo de investir em pesquisa no campo da tecnologia e da qualificação para gestão sustentável. Até o final de 2009, estão previstos R$ 9,86 milhões para a construção do campus.
Em Nova Friburgo, também vinculado à UFF, estão previstas 1.500 vagas para 2009, com investimentos de R$ 3,7 milhões até o final de 2008. Os cursos do município devem ser nas áreas de odontologia, farmácia e biomedicina.
O campus de Rio das Ostras, ligado à UFF, deve receber R$ 9,85 milhões até o final de 2009 para a implementação da unidade. Estão planejadas 2.120 vagas nos cursos de ciência da computação, engenharia de produção, psicologia, produção cultural, serviço social e enfermagem.
Em Nova Iguaçu, o campus, que será vinculado a UFRRJ, deverá ofertar 2.400 vagas em 2008 nos cursos de administração, ciências econômicas, história, matemática (licenciatura) e bacharelado, pedagogia e turismo.
Ao todo, estão prometidos investimentos de R$ 10,7 milhões até o final de 2007 para atender à demanda do município por cursos de graduação públicos. Nova Iguaçu possui cerca de 122 mil jovens entre 18 a 24 anos, sendo que mais de 200 mil habitantes têm menos de 18 anos.
O campus de Três Rios, ligado à UFRRJ, deverá oferecer 1.600 vagas em 2009, com investimentos de R$ 8,38 milhões. Os cursos serão de administração, ciências econômicas, gestão ambiental, turismo e direito.
A expansão das universidades federais está prevista no Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), lançado em abril pelo Ministério da Educação. Para inaugurar o PDE no Rio de Janeiro e garantir a participação do estado e dos seus 92 municípios, o ministro Fernando Haddad visita a capital fluminense nesta quinta-feira (22).
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Sobre Feriados

J. Roberto Whitaker Penteado
(Editor da Revista ESPM)
E havendo Deus acabado sua obra, descansou no sétimo dia.
- Gênese
Acho que foi a primeira vez, na história recente, que ocorreu uma "ponte dupla" de feriados, e - quase todos - descansamos durante 6 dias seguidos. A honestidade não me deixa afirmar, contudo, que tenha sido uma experiência desagradável.
O tempo extra permitiu-me, por exemplo, fazer umas pesquisas, para registrar que são 12 os feriados oficiais, no Brasil. Sete deles são cristãos, católicos. O nascimento, a morte e a ressurreição de Jesus respondem por três. Os demais são os 2 do carnaval (há quem sustente que são datas "pagãs"), o dia da padroeira do Brasil e finados, escolhido pela Igreja no dia seguinte à festa de todos os santos, desde o século 13. Há dois feriados "leigos": a confraternização dos povos, em 1º de janeiro, e o dia do trabalho, no 1º de maio. Este é uma homenagem da Internacional Socialista aos mártires de uma greve, em Chicago, que ocorreu naquela data, no ano de 1886. É curioso que, apesar disso, os americanos festejem o seu labor day na primeira segunda-feira de setembro: uma invenção da CUT lá deles. Os 3 outros feriados são "históricos" celebram a morte de Tiradentes, em 1792; o "grito" da independência, no 7 de setembro de 1822 e a transformação do país em república, em 15 de novembro de 1889, diante do "bestificado" povo do Rio - como conta Aristides Lobo.
Há muitos feriados municipais, mas SP e Rio, nossas 2 principais cidades, são comedidas. SP celebra 3: a fundação da cidade, em 25 de janeiro de 1554; a revolução contra o governo central, pela constituição, em 9 de julho de 1932 e o novo dia "da consciência negra", escolhido em 20 de novembro para marcar a morte de Zumbi dos Palmares, no ano de 1695. O Rio, quatro: o de Zumbi (foi lá que surgiu), o dia do comércio (!) na 3ª segunda-feira de outubro e mais 2 religiosos (coisa que eu não sabia): S. Sebastião, padroeiro da cidade, em 20 de janeiro e o dia de S. Jorge: 23 de abril.
Contrariamente ao que se pensa, o Brasil não tem mais feriados do que os paises "desenvolvidos". Nos EUA o número é mais ou menos igual e, na França e no Japão, são em número bem maior do que aqui.
Fiz uma descoberta curiosa: as palavras féria e feira têm a mesma origem latina, e "féria" não é, necessariamente, um dia de descanso (teor que subsiste na expressão "féria" como resultado pecuniário do labor diário) - mas um dia de atividades e festejos, como eram as feiras populares e as quermesses.
E outra curiosidade: o português é o único idioma ocidental em que os dias de trabalho são designados como feiras. A coisa vem do tempo dos romanos. A "primeira feira" era, originalmente, no domingo, já que o dia oficial do descanso de Deus foi o shabbat hebreu. O imperador Flavio Constantino, contudo, já na era cristã, trocou o nome de primeira feira para Dies Dominica, dedicando um segundo dia de descanso (ou homenagem) ao deus dos cristãos. Mas parece que a "semana inglesa" só foi adotada bem recentemente, na segunda metade do século 20. E perdoem-me, mas não achei, no Google, uma origem para esta expressão...
quarta-feira, novembro 21, 2007
Trabalhemos menos, trabalhemos todos

Retirado do Blog do Emir Sader
Muitas coisas nos diferenciam dos outros animais mas nada é mais marcante do que a nossa capacidade de trabalhar, de transformar o mundo segundo nossa qualificação, nossa energia, nossa imaginação. Ainda assim, para a grande maioria dos homens, o trabalho nada mais é que puro desgaste de suas vidas. Na sociedade capitalista, a produtividade do trabalho aumentou simultaneamente a uma tão forte rotinização, apequenamento e embrutecimento do processo de trabalho que já não há nada que mais nos desagrade do que trabalhar. Preferimos, a grande maioria, fazer o que temos em comum com os outros animais: comer, dormir, descansar, acasalar.
Não foi descoberta de Marx e sim de Adam Smith e de David Ricardo que o valor dos produtos não vem da terra, nem dos metais preciosos, nem da tecnologia, mas do trabalho humano. Daí o lugar essencial que ele tem nas nossas sociedades, ou que deveria ter.
Nossa capacidade de trabalho, esta potência humana de transformação e emancipação de todos, ficou limitada a ser apenas o nosso meio de ganhar o pão. Capacidade, potência, criação, o trabalho foi transformado pelo capital no seu contrário. Tornou-se instrumento de alienação no sentido clássico da palavra: como ato de entregar ao outro o que é nosso, nosso tempo de vida. De produzir para que outros se apropriem do que produzimos, para que outros decidam o que produzimos, como produzimos, para quem produzimos e a que preço será vendido.
A maioria esmagadora dos brasileiros – e de toda a humanidade – vive do seu trabalho. Vive para trabalhar e trabalha para viver. A esmagadora maioria gasta a vida em atividades que não lhes interessa, às quais se submete porque precisa manter-se viva. Para a maioria, sobreviver tornou-se uma forma de vida: sair de casa cedinho, retornar doze horas depois, após uma jornada esfalfante de um trabalho desinteressante, repetitivo, extenuante, para ter apenas o tempo de se recompor para voltar a repetir, mecanicamente, a mesma jornada no dia seguinte e nos outros dias, pelo resto dos dias da sua vida. E ainda precisa agradecer quando consegue ter e manter um tal trabalho!
Os que vivem esse cotidiano são os que mais precisariam de tempo e de conhecimento para decifrar esse imenso mistério de viver trabalhando loucamente apenas para se manter pobre, enquanto os que não trabalham enriquecem às suas custas. Mas são eles os que menos dispõem de tempo e de conhecimento. O rico não é apenas aquele que desfruta mais e melhores bens materiais, mas é também aquele que dispõe do seu tempo, até para não fazer nada.
As centrais sindicais brasileiras desenvolvem uma campanha pela diminuição da jornada de trabalho. Não pode haver campanha mais justa e humanista. Que os trabalhadores, os que produzem todas as riquezas do Brasil e do mundo, possam trabalhar menos e viver mais, até para que outros possam ter acesso ao trabalho formal e dignamente remunerado. Não se combate o desemprego apenas abrindo novas frentes de trabalho. É indispensável – como faz a proposta de reforma constitucional do governo venezuelano, que diminui a jornada de trabalho de oito para seis horas – diminuir a jornada de trabalho. Diminuir as horas de trabalho para que os trabalhadores possam dispor de um tempo para a família, o lazer, o descanso, a leitura, a luta coletiva. Para que decidam o que querem fazer com ao menos uma parte das suas vidas.
Valorizar o trabalho, valorizar o mundo do trabalho, valorizar os trabalhadores – são os grandes ideais humanistas do nosso século. A desumanização do trabalho é a desumanização do homem, da sua capacidade criativa, imaginativa, humanizadora do mundo. Um mundo à imagem e semelhança dos nossos melhores sonhos só poderá ser construído pelo trabalho livre, desalienado, escolhido pelos homens.
Precisamos caminhar para uma sociedade onde o trabalho seja instrumento de emancipação, onde o conhecimento seja instrumento de desalienação e onde os homens vivam através do trabalho que realizam de forma solidária e cooperativa e não mais para serem explorados, ofendidos, humilhados, oprimidos.
quarta-feira, novembro 14, 2007
Tenha cuidado no orkut, recomenda pesquisa
Felipe Zmoginski, do Plantão INFO
SÃO PAULO - Estudo do grupo inglês Get Safe Online revelou que cresce o número de golpes contra usuários de redes sociais.
O estudo revela que internautas com perfis em redes sociais como MySpace, Facebook ou orkut estão mais suscetíveis a golpes e fraudes online.
De posse de informações como a data de aniversário ou a cidade onde o usuário vive, fica mais fácil para scammers e crackers falsificar cartões de crédito, tomar empréstimos ou aplicar outros tipos de golpes contra as vítimas.
A Get Safe Online apontou que, entre usuários de internet no Reino Unido, o porcentual de vítimas de golpes online cresce entre os internautas com perfil em redes sociais, em comparação com internautas que não divulgam dados nestas redes
SÃO PAULO - Estudo do grupo inglês Get Safe Online revelou que cresce o número de golpes contra usuários de redes sociais.
O estudo revela que internautas com perfis em redes sociais como MySpace, Facebook ou orkut estão mais suscetíveis a golpes e fraudes online.
De posse de informações como a data de aniversário ou a cidade onde o usuário vive, fica mais fácil para scammers e crackers falsificar cartões de crédito, tomar empréstimos ou aplicar outros tipos de golpes contra as vítimas.
A Get Safe Online apontou que, entre usuários de internet no Reino Unido, o porcentual de vítimas de golpes online cresce entre os internautas com perfil em redes sociais, em comparação com internautas que não divulgam dados nestas redes
Pesquisa mapeia discurso neonazista na internet

PAULO CÉSAR NASCIMENTO
O uso da rede mundial de computadores por neonazistas como espaço para disseminação do racismo e para defesa do ideário da raça ariana é o tema central de dissertação de mestrado apresentada na semana passada no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Em Os Anacronautas do Teutonismo Virtual: uma etnografia do neonazismo na Internet, a antropóloga Adriana Abreu Magalhães Dias, orientada pela professora doutora Maria Suely Kofes, investiga e mapeia com profundidade o universo subversivo de sites, portais, comunidades, fóruns, chats, blogs e listas de discussão que abordam a temática racista e revisionista (que tenta invalidar a veracidade histórica do holocausto na Segunda Guerra Mundial e o número de judeus mortos por agentes nazistas).
Sites foram denunciados ao Ministério Público
A minuciosa análise etnográfica das práticas e representações discursivas expostas por ativistas no cyberespaço e a interpretação de elementos mitológicos evidentes no material fartamente disponível, permitiu à pesquisadora constatar que, nos sites analisados, o neonazismo articula mitos, narrativas e rituais em uma estratégia para preservar o teutonismo, ou a homogeneidade absoluta das raças germânicas, conforme a ideologia propagada por Adolf Hitler e seus simpatizantes.
“Os sites observados são profundamente demarcados por um léxico racista e pela ideologia neonazista, que retoma símbolos, mitos e propostas jurídicas, religiosas e políticas do nacional-socialismo”, atesta Adriana. “Os autores constroem e atualizam mitos, inscrevendo na palavra raça uma relação simbólica, polissêmica, enraizada numa ideologia saturada de anacronismo, contradições, ódio e insegurança, ideologia esta que os pretende heróis. Daí nasceu a minha ironia: são os anacronautas, ou seja, anacrônicos, que se mitificam heróis de um tempo imemorial e pretendem resgatar a sua Germânia, ainda que virtualmente”, argumenta.
Extermínio – Para ela, a associação do neonazismo ao revisionismo expressa o racismo em sua radicalidade máxima, orientada por uma luta política que deseja implantar um “racismo de Estado”, conforme denominou Michael Foucault (filósofo francês morto em 1984, aos 58 anos). Nessa forma extremada de pensar, defendida pelos movimentos neonazistas, o Estado deve reunir e proteger a “raça” de seus inimigos, até mesmo por meios de exterminação, se necessário.
Portanto, os sites adotam discursos a fim de compor a seguinte proposta: se a “raça branca” está ameaçada, é preciso reagir. Qual a medida a ser tomada? Um cartaz pinçado por Adriana no site brasileiro Valhalla 88 oferece a sua alternativa:
“No impresso, a incitação ao homicídio é vista como ‘natural’ e a interdição ao casamento racial toma a forma de uma nova guerrilha. A montagem do cartaz sugere que cada visitante reaja violentamente à possibilidade de mistura racial, condensando assim os ideais de ódio expresso pelo discurso racista”, explica Adriana.
Em outro grande portal racista, o norte-americano National Alliance, ao casamento inter-racial é atribuído o valor de “pior que assassinato”. No site, vasto material racista é oferecido, até livros infantis para colorir com a história dos povos arianos.
Esses temas são recorrentes em quase 13 mil sites na Internet e em cerca de duas centenas de comunidades do Orkut, e, se em alguns países são considerados criminosos e retirados do ar, logo são repostos por uma rede que os mantêm praticamente intactos. Segundo a pesquisadora, a grande maioria dessas URLs (endereços de sites na rede) são cópias de cerca de quinhentas principais.
Doutrinação – Ela descobriu ainda que na grande maioria dos sites o ativismo é sugerido e incitado como uma espécie de iniciação, por meio da oferta de adesivos e pôsteres para serem impressos e utilizados: basta que cada pessoa faça o download dos cartazes e panfletos disponíveis no site, imprima algumas cópias destes e os distribua ou cole em locais onde serão lidos pelo maior número de pessoas possível: caixas de correio, inseridos no interior de livros em bibliotecas, espalhados em mesas de lanchonetes, gôndolas de supermercados, livrarias, entre outros.
“A distribuição da propaganda alcança o Povo Branco por duas maneiras: diretamente (através do próprio material) e indiretamente (pela resultante cobertura da mídia). Freqüentemente, mesmo uma pequena, mas bem direcionada, distribuição conduzida por um astuto ativista resulta em primeiras páginas de jornais e cobertura televisiva. Este ativismo construtivo é vitalmente importante, além, é claro, de ser muito divertido e altamente satisfatório!”, sinaliza um dos sites analisados.
Em outras comunidades e em inúmeros fóruns, temas que sensibilizam parcela significativa de internautas, principalmente mulheres, como aborto, estupro e pedofilia, funcionam como porta de entrada para a doutrinação racista. Posteriormente, à medida que navegam pelos sites que lançam mão desse ardil, deparam com indicações de links, literatura e arquivos para download em que a temática neonazista é apresentada.
“Movidas pelo ódio explícito, principalmente dirigido a judeus e a negros, ou pelo medo de que o futuro seja absolutamente ‘não-branco’, a rede racista se conecta a meio milhão de pessoas, que fazem da Internet um grande veículo de divulgação, comunicação, transmissão de arquivos, venda de produtos, enfim, uma grande estrutura para este movimento”, observa a antropóloga.
Campo minado – Adriana acabou pagando o preço pela coragem de pisar em terreno tão minado: foi bombardeada com ameaças em fóruns de discussões na internet durante a árdua coleta de dados para o seu trabalho. Indignada com a apologia criminosa das informações que encontrava nos sites, os denunciou ao Ministério Público. Por conta de ações judiciais, dela e de outros militantes, três sites brasileiros foram retirados do ar desde 2004: White Power SP, Loja ZyklonB e Valhalla88, este um dos sites mais acessados da América Latina, com 250 mil internautas.
“Foi um desafio intelectual e uma reafirmação de minha postura política: por um lado precisava explicá-los, por outro tinha de denunciar os crimes que cometiam”, pondera.
A elaboração da dissertação levou aproximadamente um ano e meio, mas há cerca de cinco anos ela desenvolve o exercício etnográfico em sites racistas, neonazistas e revisionistas, depois de se aproximar do tema pela primeira vez na pesquisa para a monografia da graduação.
Para compor o consistente estudo de 329 páginas, Adriana, além de mergulhar na internet, consultou vasta bibliografia acerca da Segunda Guerra Mundial e, em particular, a respeito do nacional-socialismo, entrevistou sobreviventes de campos de concentração, em São Paulo e em Curitiba, entrou em contato com o movimento negro e o movimento da memória do holocausto e conversou com procuradores, promotores e juízes que lidaram com o crime de racismo, inclusive o mediado por computadores, entre outras providências.
“Essa dissertação de mestrado, que bem se confunde com uma tese de doutorado, tem a importância política de permitir uma compreensão interna dos argumentos nazistas contemporâneos e não teme posicionar-se criticamente, e com exterioridade também, em relação ao seu objeto”, salienta a orientadora Suely Kofes. “É um exemplo a ser estimulado na Universidade entre pesquisa empírica, leitura e discussão teórica, e reflexão”.
A qualidade do trabalho permitiu a Adriana ser aprovada para o doutorado sem a necessidade de se submeter ao exame de seleção. Para a tese, ela se debruçará sobre o fenômeno do movimento neonazista e na sua relação com a construção da identidade germânica apresentada nos sites.
SC concentra maioria de ativistas no Brasil
No Brasil, crimes de ódio racial ainda são precariamente condensados em dados específicos, muitas vezes caracterizados apenas como lesão corporal, injúria ou até homicídio e não destacados como crimes de racismo, embora a Constituição Brasileira de 1988 o preveja como imprescritível e inafiançável, lembra Adriana.
Ainda assim, as estatísticas dos movimentos anti-racistas apontam para o fato de que pelo menos 90 mil pessoas estejam diretamente envolvidas em grupos neonazistas no país, cerca de metade disso apenas no Estado de Santa Catarina, aponta a pesquisa. O maior site neonazista brasileiro, o Valhalla88, tem sua sede em Santa Catarina e alcançou a significativa marca de 200 mil visitas diárias antes de ser retirado do ar, em agosto deste ano.
Ainda de acordo com o estudo, nos fóruns e nas comunidades do Orkut em que internautas se identificam com o programa de ódio do Valhalla88, a maior parte dos participantes (60%) se apresenta como de “sangue alemão”. Destes, 20% são também descendentes de italianos e, entre os restantes, 5% afirmam ser de origem sueca, norueguesa, belga, holandesa ou dinamarquesa. Há ainda 15% de origem “ancestral” italiana.
“A auto-garantia de uma origem européia, particularmente teutônica, é muito forte, principalmente nos internautas que se identificam como moradores de Santa Catarina, chegando a 48%, o que confirma os dados das ONGs anti-racistas”, afirma Adriana. “Um dado importante a ser recordado é que este Estado abrigou o maior núcleo de nazistas no Brasil na década de 30, seguido de perto pelo Rio Grande do Sul”, completa.
Sites endogâmicos driblam sistemas de busca
Em língua inglesa, portuguesa e espanhola (línguas nas quais Adriana é fluente), há na Internet cerca de 12,6 mil sites racistas, revisionistas e neonazistas, entre sites pessoais e institucionais, blogs, fóruns e, dentre os 800 mais acessados, ela escolheu para estudo os que mais links estabeleciam com outros sites, os que eram mais citados em artigos presentes em outros sites (ainda que não houvesse links no artigo), e os que disponibilizavam mais material para análise.
Da relação de blogs, selecionou os mais citados na rede identificada, os com mais material disponibilizado, quer em forma de artigo, quer em forma de gráfico, e os que forneciam mais links para outros pontos. Entre os fóruns, optou pelos que possuíam o maior número de participantes e temas mais diversificados. As escolhas resultaram num conjunto de 40 URLs.
Mais de 75% dos sites analisados apresentam versões para aquelas três línguas e mais de 40% oferecem fóruns ou textos em alemão. Outras línguas são também utilizadas em muitos deles (o italiano em 35% e o francês em cerca de 30% deles merecem destaque), e no geral, 80% dos sites construídos apresentam versões em outras línguas. Os dados coletados durante os dois primeiros anos de pesquisa (de 2002 a 2004) apontavam para cerca de 8 mil sites.
“Refiz os procedimentos de coleta nos últimos dois meses e constatei o aumento significativo. Isso se dá pela reprodução contínua de sites pela rede”, enfatiza.
Profundidade – Na construção da pesquisa, Adriana empregou ferramentas específicas de mensuração de conteúdo e de número de acessos dos sites, fóruns e blogs, e de tráfego de informações na Web, como as disponibilizadas pelo portal Alexa e pelo projeto Cibermétrica, da Universidade de Sydney (Austrália).
Os dados estatísticos revelaram que os sites, além de mais extensos e muito mais povoados de links que os blogs, são também muito mais profundos, para evitar que a maior parte de suas páginas seja alcançada pelos tradicionais sistemas de busca, como o Google.
“Os sites racistas são em geral muito densos, tanto em hipertextualidade (há páginas com mais de 500 links), como em multimídias (ícones, vídeos e imagens ocupam dezenas de bytes nos sites). Há muito mais links internos do que externos, dificultando a localização de grande parte do conteúdo, geralmente de caráter mais agressivo, por motores de busca”, descreve Adriana em sua dissertação.
Dessa maneira, a possibilidade de ser achado é menor, todo material está disponível no mesmo lugar e, se retirado do ar, basta colocar tudo de novo em um mirror (espelho, em linguagem computacional, ou cópia exata do site em outro endereço para permitir o acesso a informações que de outra forma não estaria disponível).
A densidade de links internos, contudo, deixa os sites visíveis para outros similares da rede, observa a antropóloga.
“O reforço de vínculos entre eles torna esses sites profundamente endogâmicos, o que confirma a idéia de que na verdade são vários sites em um, ou ainda um aglomerado de sites disponibilizados num mesmo lugar”, defende ela.
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